Coimbra  26 de Junho de 2019 | Director: Lino Vinhal

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Lino Vinhal

Manuel Antunes: carradas de mérito

29 de Maio 2018

As coisas corriam mal a nível da medicina cardiotorácica, aqui em Coimbra. Alguns avanços conseguidos, nomeadamente na circulação sanguínea extracorpórea, não evitavam desenlaces fatais poucas horas ou dias depois das intervenções cirúrgicas. O Hospital velho mudara-se para o novo. Norberto Canha, então Presidente do Conselho de Administração, foi o homem da mudança. Rápida, eficaz, quase sem Coimbra disso se aperceber. Com o seu ar de quem parece andar sempre nas nuvens, Norberto Canha tinha consciência de que lhe faltava um grande cirurgião nessa área da medicina cardiotorácica.

Descobriu-o na África do Sul, na cidade do Cabo, onde a escola do Professor Barnard – o primeiro no mundo a fazer um transplante cardíaco – dava passos seguros na busca de conseguir que as falhas do coração não matassem tanta gente. Trabalhava lá um jovem cirurgião que já dava nas vistas por duas razões: porque era mesmo bom de bisturi em punho e porque tinha uma capacidade de trabalho verdadeiramente invulgar. O dia, para ele, começava noite ainda e metia-se noite adiante. Sempre disponível e apaixonado pela arte de abrir o peito e tratar o músculo cardíaco por tu. Norberto Canha, conhecedor desta realidade, disse para consigo: “É aquele. Vou buscá-lo.” E foi.

Chamava-se e chama-se Manuel Antunes. Quase ninguém deu por ele quando chegou, mas cedo dele se ouviu falar. Estava ali um cirurgião do foro cardíaco invulgar, dizia-se que estava a revolucionar métodos de trabalho e técnicas cirúrgicas, reduzindo a pouco listas de espera cedo desaparecidas. À cintura um bip. Não era ainda tempo dos telemóveis. Mas dera instruções no Serviço que à menor alteração no estado de saúde do doente, fosse ele qual fosse, o chamassem. Vezes sem conta partilhava de realizações diversas de matriz social onde lhe era apontado o dedo “Aquele ali é o Manuel Antunes”. Sentado, meio de esguelha à mesa da convivência com amigos e conhecidos, às tantas o bip apitava. Consultava o número, levantava-se, não dizia nada a ninguém e já mais ninguém o via. Fora a correr para o Hospital de onde solicitavam a sua presença para qualquer emergência.

Este homem, este médico, este cirurgião é o Professor Doutor Manuel Antunes, o jovem que anos antes saíra de uma aldeia ali para os lados de Leiria, demandara Lourenço Marques e, ala que se faz tarde, passou-se para África do Sul. A medicina era a sua paixão. A cirurgia cardiotorácica o seu destino.

Chegado a Coimbra, ao então também acabadinho de chegar Hospital Novo da Universidade de Coimbra, revolucionou tudo. Com bichos carpinteiros que não o deixavam sossegar um minuto, arranjava tempo para mais uma consulta, espaço para mais um doente, oportunidade para mais uma intervenção. Pegou na equipa, do pessoal auxiliar aos colegas médicos, passando pela enfermagem, e dispô-la no seu tabuleiro de xadrez, de acordo com as suas competências, as necessidades, as linhas mestras do seu projecto. Alguns, muito poucos, poderão não ter gostado. O ritmo era intenso, a compreensão para as falhas era pouca e salvar vidas era o seu ofício. Fez intervenções cirúrgicas sem fim. De manhã, à tarde, à noite, madrugadas dentro. Com estranheza de muitos, o raio dos doentes até nem morriam. As estatísticas davam um índice de recuperação até então nunca visto. Outros Centros Cirúrgicos puseram-se de ouvido à escuta. Lá por Espanha começou a constar que ali algures, por Coimbra, havia um cirurgião milagreiro. Dia após dia o Serviço de Cardiologia, a antecâmara dos intervencionados, levava-lhe doentes para serem operados. Manuel Antunes tinha sempre tempo e espaço para mais um. Só exigia uma coisa: que quem tivesse peso a mais o perdesse. Rapidamente. Uma vez intervencionado, o doente cedo dava sinais de recuperação e pouco tempo depois tinha alta e dava espaço a mais outro. E mais outro. E mais outro. Às tantas, mais que o resto do país todo junto. Mais às tantas, quase tantos como a Península Ibérica toda junta. E o índice de mortalidade a raiar as fronteiras do quase nada, se bem que nestas coisas da vida e da morte o pouco é sempre muito.

Os corredores do hospital, na sua área de trabalho, fizeram-se apertados. As camas poucas. Os blocos operatórios tinham que ser rateados por outros Serviços. Manuel Antunes disse para consigo “Isto não é para mim”. E foi à conquista de espaço, de camas, da optimização dos colaboradores e de equipamento adequado. Que não havia dinheiro, diziam-lhe da Administração do Hospital e do Governo Central. “Deixem-me criar as condições mínimas que eu arranjo maneira de rentabilizar o Serviço que quero conseguir. Mas quero autonomia funcional, relativa autonomia financeira e autonomia de gestão. Quero um Centro de Responsabilidade Integrado (CRI).”

“Mas então se é assim tão bom por que não faz transplantes de coração, a jóia da coroa da medicina cardiotorácica?” perguntavam os críticos do costume. “Não faço nem vou fazer ainda. Fá-los-ei quando chegar a altura”, dizia, explicando depois que o coração mata milhares de pessoas por maleitas diversas que, essas sim, devem ser acudidas de imediato. “Acha, acham todos, que vou deixar de salvar milhares de vidas para me tornar mediático com dois ou três transplantes que, a correrem bem, salvam outras tantas pessoas? Acham que esse é o sentido ético da medicina e deve ser o compromisso de um cirurgião? Eu não vou por aí.”

E a seu tempo os transplantes chegaram. E fizeram-se. E resultaram. E hoje faz-se tudo, naquele Serviço que foi, e é, um verdadeiro modelo da organização hospitalar em Portugal. Graças a este homem que dentro de dias se vai jubilar. Graças a este cirurgião que construiu de raiz o edifício onde instalou o Serviço e que algumas vezes encontrámos de estetoscópio ao pescoço e de fita métrica no bolso. Sim, porque o Professor Doutor Manuel Antunes até na construção do edifício era exigente. Acompanhava os mais ínfimos pormenores, descobrindo defeitos de construção onde mais ninguém os via. Este Manuel Antunes foi, e é, um homem verdadeiramente invulgar.

Uma vez o Primeiro-Ministro chamou-o a Lisboa e convidou-o para Ministro da Saúde. “Obrigado mas não posso aceitar”, respondeu-lhe. Surpreendido e nada preparado para a resposta, o Primeiro-Ministro perguntou-lhe “Mas porquê?” “Porque não me vai deixar aplicar as ideias que tenho para a saúde e pelo que já me apercebi, desta área o Senhor Primeiro-Ministro sabe pouco.” Entendidos quanto ao assunto que o levou a Lisboa, Manuel Antunes já veio jantar, nesse dia, ao Rui dos Leitões.

Não, não é um homem da medicina privada embora a respeite e reconheça a sua importância e necessidade. Mas a praia dele é a medicina enquanto serviço público.

Gosta de política, embora aprecie pouco a forma como se faz política em Portugal. Mostrou, nesse campo, disponibilidade cívica quanto baste. Social-democrata por convicção, deu a mão a/em quem acreditou, de Cavaco Silva a Francisco Andrade, passando por Carlos da Encarnação.

Há muitos anos que os seus ex-doentes e amigos lhe promovem um almoço de homenagem. Em Fátima ou Figueira da Foz junta milhares. Dentro de dias vai ser alvo de mais uma. Provavelmente, a homenagem de despedida no Convento S. Francisco, já que a sua jubilação está aí à porta.

O que vai fazer agora, jubilado que for, não sabemos. Para casa, de barriga para o ar, não irá de certeza. Para a medicina privada também não. Afastar-se do seu mundo médico parece-nos pouco provável. Vá para onde for, que vá por bem. Deixou à saúde, em geral, e a Coimbra, em particular, um tributo cheio de mérito e honra. Deixou e vai deixar. Não o vemos a jogar à bisca numa esplanada qualquer. Que vá. Seja lá para onde for, levará na consciência a certeza de dever cumprido e no peito milhões de gratidões escondidas.

É esse obrigado enorme que aqui fica também.

 

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