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João Pinho

Legislativas 2019 – A rosa que te dei

10 de Outubro 2019

As legislativas de 2019 vieram confirmar aquilo que se esperava. O país acentuou a tendência socialista, conferindo ao partido da rosa uma confortável maioria para governar, baseada na conquista de 15 dos 20 círculos eleitorais. E só não teve a maioria absoluta pois, a dada altura, confiou em demasia nas sondagens e aburguesou-se, deixando emergir fantasmas: primeiro Tancos, depois ataque de Rio nos debates televisivos.

A nova geografia política não deixa dúvidas quanto à intensidade do ciclo socialista que atravessamos: só Leiria, Vila Real, Bragança e Viseu se mantiveram fiéis ao PSD, enquanto em Beja, Portalegre e Évora não elegeu nenhum deputado. Rio não é, nem será, o líder capaz de transformar o PSD numa alternativa credível, mobilizando o eleitorado no todo nacional, incluindo o desavindo, ou congregando novas massas.

Na verdade, o PSD, e toda a direita, diga-se, passa por uma crise de identidade e segurança, que tem as suas raízes, a meu ver, na má gestão do problema “troikiano” – que se mantém como uma espada atravessada na vida de muitos portugueses.

Tenho dúvidas que o número recorde de partidos que concorreram, seja um sinal de vigor democrático. Parece-me excessivo ter 20 partidos e uma coligação num país tão pequeno como o nosso – alguns sem fundamento ideológico, correspondendo mais a interesses pessoais do que interesse público. É bom ter por onde escolher, mas não exageremos. Esta fragmentação esconde, também, formas ardilosas de animar muito populismo e demagogia…

Este novo ciclo foi, para alguns líderes históricos, o fim do seu “reinado”. Assunção Cristas e Jerónimo de Sousa preparam-se para sair da cena política. Os extremos tocaram-se: ambos caem vítimas não só do recuo em votos e deputados, mas também da indefinição ideológica: o CDS anda perdido, algures entre o centro e a direita; o PCP não se renovou e continuou ligado à corrente do socialismo revolucionário, defendendo regimes e políticas dúbios.

Em sentido contrário temos a emergência de novas forças políticas com forte capacidade de crescimento nos próximos anos, caso do PAN, da Iniciativa Liberal ou do Livre (não refiro outros pois parecem-me mais epifenómenos). O número recorde de 10 partidos representados na AR demonstra a força da nossa democracia na fase madura, dando ao PS amplas possibilidades de governar em diálogo e com alguma tranquilidade.

No nosso distrito o PS teve maioria absoluta (foram 7 a nível nacional) e só os municípios de Cantanhede e Mira fugiram à tendência, tendo o PSD perdido um deputado face a 2015. Nada que não se esperasse, também, face a uma forma de estar e de fazer política que colocam os socialistas num patamar muito superior. É que o povo não é burro e sabe a quem dar a rosa ou o espinho…

Por fim uma palavra para a abstenção. Não basta criticar é preciso agir: no sentido de tornar o voto obrigatório e de tomar medidas simbólicas, como disponibilizar na AR um espaço equivalente aos 46% de abstencionistas, forma de recordar, diariamente, a questão da legitimidade parlamentar.

(*) Historiador e investigador

 

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