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João Pardal

Instrumentos tradicionais portugueses: O adufe

27 de Novembro 2020

Opinião João Pardal O adufe

A adufeira Ilda Vaz do Grupo Folclórico de Boidobra

Estimado leitor, hoje retomamos os escritos sobre os instrumentos tradicionais, desta feita o adufe. Trata-se de um instrumento que pertence à família dos pandeiros bimembranoformes, com ampla distribuição no território da Península Ibérica.

Em Espanha ocorre nas zonas montanhosas de Leão, Astorga, Astúrias e na região raiana da Galiza, onde pode acompanhar os gaiteiros. Em Portugal ocorre na parte oriental, nomeadamente em Trás-os-Montes, na Beira Baixa e no Alentejo. O adufe Beirão e o Alentejano tem um formatado sensivelmente quadrado, apresentando elementos decorativos, enquanto o Transmontano tem uma forma retangular podendo assumir, também, a forma de um losango, mas mais pequeno e sem elementos decorativos. Este instrumento também chegou ao Brasil, onde assume o nome de baptismo adufe e acompanha, na região de S. Paulo, nas folias do Espírito Santo e nas Pastorais dos Reis.

A origem deste instrumento diverge de autor para autor. No Norte de África o pandeiro tem o seu correspondente doff ou deff das orquestras femininas, por isso há quem aponte uma origem árabe, a partir do aduff ou daff, também quadrangular. Ernesto Veiga de Oliveira, etnólogo de referência no contexto nacional, com uma extensa obra etnográfica, no seu extraordinário livro sobre “Instrumentos Musicais Populares Portugueses” refere que Ernesto Vieira considera uma origem a partir do tofe hebraico, relacionando o nosso pandeiro com esse instrumento, que também é de uso exclusivamente feminino.

Seguramente, que o adufe está entre nós desde tempos de antanho, e que viu nascer a fundação do país. No século XIII, numa Cantiga de Amigo de Martim de Ginzo, jogral da corte de Afonso X, aparece uma alusão ao adufe, tocado por uma mulher de Ourense. Em Portugal existem referências ao tempo de D. João II e Gil Vicente, no séc. XVI, onde se lamenta a perde de influência deste instrumento musical.

Tocado nos folguedos e festas de Trás-os-Montes e do Alentejo, é na Beira Baixa que o adufe atinge a plenitude da sua expressão na música bocal mais genuína da nossa cultura tradicional. Na Beira Baixa o adufe acompanha em cantares tradicionais, sejam religiosos, como as alvissaras de Páscoa, ou profanos e festivos. Contudo, o adufe ficou imortalizado a acompanhar o canto do povo de Idanha-a-Nova na sua devoção à Senhora do Almortão. Este canto ficou, magnificamente, registado, para memória futura, pela voz de José Afonso.

De facto, foram os grupos etnográficos e folclóricos que honraram e asseguraram a transmissão à geração seguinte do canto, do manejo e das primitivas técnicas construtivas do adufe.

As adufeiras de Penha Garcia, de Monsanto, de Idanha, do Paul e de Boidobra, entre outras, são conhecidas pela excelsa qualidade e pureza dos seus cantos acompanhados pelo adufe. Em Boidobra, no sopé da Serra da Estrela, junto ao rio Zêzere, o Grupo Folclórico mantém vivo o canto e o toque do adufe.

Ilda Vaz, socióloga e adufeira, e amiga de longa data a quem presto homenagem, tem sido uma das protagonistas na defesa e na divulgação deste importante património cultural imaterial, dignamente representado no museu etnográfico local. Com organizações culturais locais deste nível o adufe está salvaguardado para as gerações futuras.

(*) Biólogo