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José Belo

Incêndios: O relatório e os passa-culpas

23 de Março 2018

A resposta inteligente à dialéctica fogos / prevenção atravessa tempos desafiantes. Este diálogo é incontornável. Nada, nem ninguém, o pode tirar da agenda das grandes preocupações do actual xadrez político, mesmo num tempo de grande volatilidade, onde os temas, muitas vezes, se esgotam em apenas um telejornal.

É que as consequências das alterações climáticas têm mesmo de ser levadas a sério, nesta luta colectiva contra os incêndios florestais, que entre nós já atingiram proporções dantescas.

Já tivemos por cá o furacão Ofélia, que com os seus ventos fustigou violentamente Portugal, tirou a humidade do ar e com a altíssimas temperaturas criou um cenário de “incêndio perfeito”. Mas quer alguns queiram quer não, o conhecimento que já há dos fenómenos meteorológicos e das condições que estes podem criar dá previsibilidade às ocorrências, o que culpabiliza grosseiramente quem não antecipou soluções preventivas através dos meios mais adequados.

Em Portugal, os resultados foram dramáticos, pondo o país de luto a chorar os seus mortos e onde milhares de cidadãos viram, também, a morte à sua frente, sentindo-se abandonados e desamparados a lutar contra as chamas, que ameaçavam as suas famílias, as suas casas e todos os seus bens, fruto do trabalho de uma vida.

Agora, com algum distanciamento e a olhar para trás, com a frieza possível, sente-se que a resposta política ficou muito aquém do desejado, não tendo havido capacidade para reduzir as consequências que tiraram a vida a mais de uma centena dos nossos concidadãos.

Foi, até, preciso que o Presidente da República viesse a terreiro puxar as orelhas ao primeiro-ministro por causa da forma inapropriada como ele agarrou tão sensível tema. Neste contexto, li, em título, num jornal diário, que “as populações viveram momentos dramáticos durante os fogos de Outubro, tendo-se constatado, no terreno, uma flagrante escassez de meios”, remetendo-se o desenvolvimento da notícia para o relatório dos peritos da Comissão Independente, que acaba de dar entrada na Assembleia da República.

E face ao que aconteceu, tudo é mais revoltante quando o citado relatório evidencia que, na altura, “… se tinha capacidade de antecipação dos acontecimentos e que havia ainda instrumentos e capacidade suficiente para minimizar o que foi a extensão do incêndio e as suas consequências”. Não dá para acreditar, se pensarmos, sobretudo, nos impostos que os cidadãos pagam (e no direito que eles têm de ver garantida a sua segurança).

Pois bem, depois do falhanço grosseiro do Estado, neste particular – SIRESP, helicópteros, Protecção Civil e a coordenação (ou falta dela) dos serviços do Estado – tenta este sacudir a água do capote, mesmo quando mais de uma centena de portugueses morreram…

E nessa ânsia de passa-culpas, até os jornalistas foram colocados no “pelourinho”, resolveu o Estado virar-se para os proprietários, que pagam os seus impostos, nomeadamente o IMI, que até engordou há pouco tempo, interpelando-os com um inusitado músculo, enchendo o peito, de megafone nas mãos, para se fazer ouvir, dizendo-lhes: ou cumprem com o que Governo manda ou vêm aí as multas que a lei acoberta.

Tudo numa insensibilidade gritante, sem se importar se esses proprietários do interior do país, ano após ano abandonados, têm um mínimo de condições objectivas para o fazer; sem se interessar se há ou não empresas em número suficiente para as “encomendas”; ou se muitos desses donos das terras têm ou não idade para andar a cortar árvores (lembrava um Jornal que em Penacova um cidadão de 82 anos morreu ao tentar fazê-lo).

Apesar do ligeiro recuo que se fez, tudo isto me parece uma verdadeira enormidade, sem pés nem cabeça, um verdadeiro atentado à normal inteligência das pessoas do interior do país, sendo que elas não podem ser responsabilizadas pelo que aconteceu.

Leiam o citado relatório e, seguramente, pensarão comigo que morreram pessoas a mais e que há muitos organismos a poder ser responsabilizados.

Tudo parece apontar, nos argumentos dos peritos, no mínimo, para negligência por acção ou omissão, por se ter feito ouvidos de mercador aos alertas e aos sinais que tantos fizeram para se evitar que Pedrógão se pudesse repetir.

Agora é preciso que o Governo “ouça” as recomendações do sobredito relatório e as cumpra, que seja menos incompetente nesta área e que de vez tenha aprendido com a enorme tragédia.

Em nome da segurança das pessoas, dos seus bens e do ambiente! Em nome do futuro!

(*) Ex-vereador do PSD na CMC

 

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