Coimbra  12 de Junho de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Jorge Gouveia Monteiro

Impedir a segregação da cidade

24 de Maio 2024

Uma das linhas de orientação e acção da maioria que actualmente governa o Município de Coimbra é a sua voluntária submissão às regras do mercado do solo urbano e a sua vontade expressa de que as famílias de menores rendimentos acelerem a sua migração para as periferias.

No início, estranhei as afirmações de José Manuel Silva de querer deslocalizar para fora do centro de Coimbra as associações que prestam apoio social aos mais carenciados. Com o passar dos meses, fui ligando os pontos dessa trajetória: teimosia em acrescentar habitação social ao planalto do Ingote; enorme bairro social na Quinta das Bicas, Taveiro; escolha de escolas muito periféricas para cedência a associações que trabalham com vítimas de problemas sociais graves (não, não vou dizer onde, porque é a pior coisa que se pode fazer); venda em hasta pública de terrenos da Câmara em zonas nobres da Cidade (Solum Sul, Guarda Inglesa), terrenos esses que poderiam servir de base a programas de alojamento de famílias jovens; recusa inicial e agora não concretização de cedências de terrenos às Cooperativas de Habitação; recusa em reivindicar para o Município os terrenos da Infraestruturas de Portugal na frente ribeirinha; incapacidade ou recusa de liderar unidades operativas na Casa Branca e na área da futura estação intermodal.

Já não restam dúvidas de que se trata mesmo de uma linha política. A actual maioria quer que a Cidade consolidada, o centro, os centros, sejam habitados pelos mais ricos. Compra autocarros para que as empregadas venham de manhã para essas zonas in e possam voltar à tardinha para casas bem longe.

Esta estratégia de fundo vai acelerar o definhamento da Cidade. Não se disfarça, muito menos se resolve com uma residência de estudantes na Baixa, que estará vazia metade das semanas e do ano. Não se disfarça, muito menos se resolve com centenas de eventos de “animação” da Baixa, por mais qualidade que alguns até tenham. Não têm ninguém nas janelas e varandas, porque ninguém lá vive. É um cenário. O proclamado “plano Marshall” para a Baixa é um bluff, porque a Câmara se demite de comprar e renovar edifícios para depois os vender ou arrendar. É um bluff, porque a Câmara se demite das suas responsabilidades de tomar posse administrativa de edifícios degradados e fazer neles as obras coercivas que a Lei lhe permite, para depois os arrendar a quem precisa.

A 100 (cem) metros da Câmara, com entrada pelo Pátio da Inquisição, está a ruína da antiga sede da Associação de Futebol de Coimbra. Entaipada, para ninguém ver. Podre.

O sacrossanto mercado não tem soluções. A multifuncionalidade das Cidades, com gente de todas as classes sociais, filhos de empregados e operários brincando com os filhos dos doutores e engenheiros, exige políticas públicas esclarecidas, modernas, generosas.

Ainda é tempo. Devemos impedir a segregação da Cidade de Coimbra. Para que ela viva.

(*) Coordenador do Movimento Cidadãos por Coimbra