Coimbra  21 de Setembro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Hospital dos Covões, a união e o comício

30 de Julho 2021

A saga da destruição do Hospital dos Covões continua, não como uma novela barata, mas como uma tragédia cuja dimensão só não vê quem não quer ver ou por outros interesses obscuros, que delapidam uma história de humanidade, capacidade e qualidade com 50 anos.

Felizmente, a cidade de Coimbra continua unida na luta pelo Hospital Geral Central dos Covões, com Serviço de Urgência Polivalente, conforme tem sido demonstrado pelas instituições e titulares autárquicos (Câmara e Assembleia Municipal), bem como pelas forças políticas de esquerda, com sucessivas tomadas de posição pública e alertas aos decisores governamentais, com a flagrante marginalização pela administração hospitalar e manifesta inépcia da estrutura regional de saúde.

A sociedade civil, os profissionais de saúde, os doentes (aqueles que precisam e têm direito), organizaram-se em associação, após um movimento gerado em rede social com mais de 37.000 aderentes, o que saúdo, tendo até sido o primeiro a expressar nessa rede a necessidade de organização de cidadania e poder da democracia participativa.

Recentemente, a Comissão Parlamentar de Saúde da Assembleia da República (onde o Partido Socialista tem a maioria e cuja Presidente é do Partido Socialista), aprovou, por unanimidade, um relatório que dá razão a uma petição pública (que subscrevemos), contestando o desmantelamento do Hospital dos Covões, requerendo a devolução da sua autonomia e o acesso à qualidade de cuidados em saúde.

Junta-se assim, mais uma página na luta pela saúde em Coimbra e Região Centro, onde a vida das pessoas tem valor, e onde Coimbra tem sido exemplar exigindo aos poderes públicos a consagração do direito à saúde propugnado por António Arnaut, esperando-se que o plenário da Assembleia da República assuma também a sua representatividade e a coerência de defesa das populações e a decisão governamental finalmente reconheça a razão (que, mesmo vencida, não deixaria de ser razão…).

Lamentavelmente, talvez por nos encontrarmos em período de pré-campanha eleitoral autárquica, assistimos a um a manobra de divisão (dada a seriedade, não pode chamar-se diversão), protagonizada por uma fracção do PSD e seus candidatos miscelânea sem ideologia, ao realizar um verdadeiro comício de propaganda como se a direita fosse o líder do combate pela saúde, quando votou contra a criação do SNS e quer um hospital geriátrico, unidade de cuidados continuados ou asilo para o Hospital dos Covões.

A união não se faz entre forças políticas com interesses contraditórios direita -esquerda, entre quem defende o Hospital Geral Central dos Covões e uma unidade para velhos, comprometendo e ignorando a intergeracionalidade em patologias, diagnósticos e cuidados de saúde adequados e em cuidados integrados e globais, entre quem quer votos apenas para exercício de poder egocêntrico e quem é coerente na ciência, na técnica e na política.

Esperamos que a associação recém-constituída mantenha a independência que caracterizou os seus pressupostos de criação, e persista na sua causa (o Hospital Geral Central dos Covões), que é a nossa causa e dos cidadãos de Coimbra que não se deixam iludir pela volubilidade da direita em tempo de antena, como se fossem os arautos da liberdade e os garantes da saúde, tremulando ao sabor das ondas da egolatria.

Queremos o Hospital Geral Central dos Covões com autonomia, sem o domínio do Hospital da Universidade de Coimbra (HUC), em que se faz crer que apenas o HUC é o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) em si, competindo ao Ministério da Saúde definir o modelo organizacional (manutenção ou reversão da fusão), desde que respeite os dois Hospitais, em acessibilidade, descongestionamento de serviços e qualidade de cuidados de saúde.

(*) Médico