Coimbra  19 de Outubro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Casimiro Simões

Histórias (d)escritas: Viagem atribulada do Crápula à Sr.ª da Asneira

14 de Junho 2019

8 - Historias descritas Casimiro Crápula

Os enormes postes são verdadeiras obras de arte da engenharia moderna

 

O Crápula está em digressão de jipe pela terra do avô materno, algures na vasta planície alentejana, matizada de branco, encarnado, amarelo e roxo na Primavera, para depois, já no Algarve, apanhar um avião em Faro rumo a Paris.

Estúpido que nem uma carroça, o animal escarra fel no chão sempre que vê na rua uma vizinha, hoje casada e mãe de filhos, a quem em vão se atirou na juventude.

Na maioria das vezes, a ave de arribação arrastava a asa à cachopa já com um grão na dita.

Nunca levou à paciência ela lhe ter dado com os sapatos.

Raramente viaja, apesar de nadar em dinheiro por ter intermediado negócios por caminhos ínvios para a instalação de parques eólicos, abocanhando baldios que eram do povo no tempo aquiliniano em que os lobos uivavam mesmo.

Chegado a Évora, entra o Crápula num autocarro turístico que o leva a conhecer as origens remotas da família.

Para ouvir melhor no andar cimeiro as explicações da guia, que tem o sotaque cantado das terras do Sul, acerca da região onde romanos e mouros fizeram das suas, o ruço de mau pêlo resolve comprar uns auscultadores como aqueles que o seu primo punha nas orelhas quando fazia um programa de discos pedidos numa rádio local.

E lá vai ele empoleirado no sightseeing bus, a arreganhar a feijoca para os citadinos que o observam com o espampanante dispositivo amarelo adquirido numa loja chinesa.

Afinal, o forasteiro de maus fígados acaba de cair na canção do bandido, salvo seja.

Teodolito e câmara de vídeo são a mesma coisa?

Talvez o comerciante de olhos em bico, ex-operário nas minas de Datong – capital chinesa do carvão, onde milhares de esculturas budistas concorrem com os templos suspensos – tenha compreendido mal o pedido do freguês luso, forreta incorrigível em tudo menos nas palavras.

Ou fez-se de tolo e quis intencionalmente impingir ao chico esperto a dupla protecção dos ouvidos para operadores de máquinas em trabalhos de construção severamente ruidosos.

Junto ao Templo de Diana, está um trabalhador da Câmara de Évora que, para efeitos de promoção da cidade Património Mundial, faz um levantamento exaustivo dos cantos e recantos que importa dar a conhecer ao visitante, segundo ordens superiores para elevar o concelho a um patamar de maior competitividade, atractividade, qualidade e inovação.

De tripé ao alto, objectiva em riste, o funcionário capta com minúcia detalhes de portas e janelas das casas que passam geralmente despercebidos a quem anda a correr, em flagrante contraste com a proverbial calma dos habitantes do antigo celeiro da nação.

O Crápula sabe sempre tudo e de tudo.

Não é capaz de estar um segundo calado e mete bastas vezes a pata na poça.

Aos 45 anos, mau como as cobras, teve na vida diferentes ocupações, dos trabalhos sazonais na adolescência, que lhe davam uns cobres para a discoteca, à especulação imobiliária e mil estratagemas para lavar dinheiro emporcalhado.

Nas férias de Verão, costumava ajudar um topógrafo amigo do pai que prestava serviços à JAE, a defunta Junta Autónoma de Estradas.

Por montes e vales, carregava o teodolito, sem saber a ponta de um corno de plantas e projecções horizontais, distâncias zenitais ou azimutes.

Burro que nem uma porta, sem ofensa para os asnos, passados tantos anos o carroceiro não distingue ainda o instrumento geodésico de uma simples câmara de vídeo.

Quem paga tamanha ignorância é o zeloso técnico da autarquia eborense, confrontado de repente com longas teorias do Crápula sobre o manuseamento do teodolito nos centros históricos.

Entre um tripé da topografia e idêntico dispositivo do jornalismo, do cinema ou da publicidade, há muitas diferenças.

O pombo inchado desiste de voar para Paris

Só que o emplastro não as vislumbra nem com palmatória e, de tanto ser indiscreto, tende a misturar alhos com bugalhos e a protagonizar as situações mais hilariantes.

A vontade de expelir o vómito da boca fedorenta vezes sem conta é mais forte do que ele mesmo.

Mas o Crápula não tem emenda!

Perto da Capela dos Ossos, ainda em Évora, sofre um repentino aperto das urinas que lhe trespassa o ilíaco.

A caixa Multibanco mais próxima, ao dobrar da esquina, está num plano muito baixo, na sequência de trabalhos na via que levantaram dois palmos o nível do passeio.

Parece-lhe um mictório público.

Alivia a bexiga mesmo ali, com total descontracção!

O troglodita fez também serviço para a companhia pública de electricidade, quando esta estava ainda longe de ir parar às mãos dos herdeiros de Mao Tsé-Tung.

A empresa gémea que distribui energia do Minho ao Algarve é dona da infraestrutura que o povo contribuinte e consumidor pagou várias vezes, com língua de palmo, na longa marcha para a privatização.

A linha de alta tensão corta a meio uma herdade que não dá palha nem dá espiga, onde as papoilas rubras deixaram de florir na Primavera, nas searas de trigo a ondular ao vento.

Os enormes postes são verdadeiras obras de arte da engenharia moderna.

A meio caminho entre um montado de azinho e a muralha de Évora, ergue-se um desses mastodontes de ferro.

Qual Colombo a demandar as Índias pelo ocidente, o Crápula pensa ser finalmente a Torre Eiffel, sonho primacial da sua viagem de estreia de Portugal a França.

Toca então a fotografar de todos os ângulos o sucedâneo lusitano do famoso monumento oitocentista da Cidade Luz, espelhado pela noite nas águas do rio Sena.

Pelo sim, pelo não, faz o mesmo com uma grua ferrugenta que gira e quase se desengonça sobre um prédio em construção.

E pronto.

Ele, que tanto arrota postas de carapau frito, dá por concluída a atribulada viagem à Nossa Senhora da Asneira.

Está felicíssimo!

No aeroporto de Faro, o pombo inchado vai ao balcão da TAP e desiste de voar para Paris.

 

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com