Coimbra  20 de Setembro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

José Belo

Há muito campeonato pela frente

14 de Setembro 2021

1 – Não acho que tenha grande autoridade para pegar num tema destes ao iniciar-se uma nova época desportiva 2021/2022.

E tal penso, porque não conheço, bem por dentro, os problemas múltiplos, nomeadamente os financeiros, que possam existir.

Apesar disso, não hesito em pensar que me sinto sempre na primeira linha do que possa ser o melhor entendimento da nossa Académica, o seu presente e sobretudo o seu futuro.

E essa qualidade, que arrogo, traz-me a esperança, apesar de tantas e tantas desilusões a que vou assistindo, acreditando, mais uma vez, como tantos, que será este ano que se cumprirá o sonho adiado.

Não tenho dúvidas que os actuais dirigentes da AAC também têm o seu/nosso sonho, mas decerto pelas dificuldades enormes da tarefa, agravadas pelos tempos que vivemos, ele não tem sido concretizado, em particular na dimensão desportiva.

Cabe-lhes interpelarem-se sobre as opções estratégicas desenhadas para esta época e para o futuro! E avaliar e antecipar boas decisões!

E nelas cabe tudo, principalmente o saber chamar e estimular a devoção dos sócios.

2 – Não resisto partilhar convosco uma situação do passado: todos nós nos sentimos treinadores capazes de fazer a equipa, que no domingo vai a jogo; muitos, convictos, até, de que se o treinador a souber respeitar será vitória pela certa, trigo limpo.

O nosso saudoso Capitão, o Mário Wilson, fazia uma coisa curiosa: recolhia, à sexta-feira, de alguns sócios emocionalmente mais envolvidos, a constituição da equipa desejada por esses sócios, condimentada por algumas atrevidas sugestões tácticas, acredito, e que depois, na segunda-feira seguinte, serviriam de tema de conversa com os então chamados “teóricos”.

Criavam-se e regavam-se assim relações especiais entre o treinador e os sócios, que iam para além do que é normal e expectável, sobretudo nos tempos de hoje.

Mas para isto poder acontecer havia, tinha que haver, relações especiais entre essa grande família Académica.

E a argamassa de tudo isto estava no “ser Académica”, referência ímpar de uma vivência única, que gerou uma coesão à volta da nossa identidade, que existia viva e pujante, para lá, mesmo, dos momentos especiais.

Tinha a ver com esse incrível alinhamento, que o “sentir Académica” nos transmitia, de forma marcante, ao longo da nossa militância de orgulhosa pertença a esta “Sui generis” Instituição, reforçado, no quotidiano, pelo estreitamento de relações fluidas, abertas e abrangentes entre todos os que pertenciam à grande nação Académica.

Vivemos tempos incomuns, é certo, que estão a mexer connosco nas várias dimensões das nossas vidas, familiares, grupais, individuais, etc.

Porém, continuo, sempre expectante, à espera de ver concretizada a necessidade de dar, em cada momento, à Académica a dimensão a que a sua orgulhosa história faz jus, capaz de ajustar a motivação à esperança de um futuro de sustentada e inteligente ambição.

Contudo, parece-me que andamos com o passo curto, numa estratégia tímida, longe de um ritmo conforme à sua história.

3 – E parecem existir, até, algumas evidências de factos de enfraquecimento e, mais grave, de um declínio de entusiasmo, talvez resultantes de um acentuado descentramento e desajustamento dos nossos valores, o que, para alguns, parece colocar a Nossa Académica no quadro cinzento das equipas “perdidas no tempo”.

Estarei errado?

Se calhar estou a ser pouco complacente com quem dá à Académica tudo o que pode. E quem faz o que pode faz o que deve, como diz Miguel Torga.

Mas deve faltar alguma coisa nesta equação sócio-desportiva, ou então será impaciência minha, que continuo a pensar ser possível concretizar a ambição de, domingo a domingo, pedirmos meças ás grande equipas nacionais, desejo esse anestesiado por anos demais na 2.ª divisão.

O património comum que nos une, o “ser Académica”, parece segredar-me que chegou a hora de abanar, com vigor, algum negativismo que possa existir em alguns.

Daí, que, o resultado pesado dos 5 a 1, com o Rio Ave, tenha mesmo vindo a calhar, funcionando como despertador, empurrando a equipa para o sítio certo no grande mapa académico.

Será preciso, porém, não perder de vista que um mau início pode acarretar um processo de instabilidade psico- emocional e até uma desestruturação do plano e estratégia desejados para a época, incluindo os aspectos operacionais, económicos e financeiros num contexto do arco da velha, como é aquele que se vive.

Será preciso muita cabeça fria para não se cair em decisões com base na emoção.

4 – Por isso, cada vez penso mais ser inadiável o engordamento e “transformação” do nosso Conselho Académico, onde há tantos e tantos sócios que admiro, num reflexivo, mobilizador, dinâmico e operante “Espaço Estratégico”.

E fazer dele, devidamente tematizado, um conjunto selectivo de estudo e reflexão sobre o presente e o futuro da nossa Académica.

Esse envolvimento e inserção, nele, de devotados académicos e de representantes das nossas Faculdades e do Politécnico, serviria, também, para maximizar a interacção entre a Académica e aquelas Instituições. Por outro lado, criavam -se condições para impulsionar boas tomadas de decisão, ajudando o pensamento e o aconselhamento das direcções, visando a definição ambiciosa e estrutural dos grandes objectivos académicos para esta década, numa incontornável lufada de ar fresco de ideias novas, capaz de driblar os chumbos a mais nos desafios, que ao longo das últimas épocas vão acontecendo.

5 – Não dá para adiar!

E preciso dar público sinal de que os valores e atributos que a Briosa tem na sua génese, como a sua forma diferente e dinâmica de estar no desporto, o modelo inovador, que foi a sua marca de água, a juventude, a irreverência e até uma romântica modernidade, continuam vivos e diferenciadores, capazes de estimular positivamente uma adormecida ambição, reagindo energicamente contra os que parece quererem habituar-se a mais do mesmo, ano após ano.

Por outro lado, com esta caminhada titubeante, estamos a deixar espaços vazios, que podem ser ocupados por outros Clubes, se o não foram já.

Urge marcar território e defendê-lo com inteligência académica.

É preciso agitar as águas, fazendo dos ausentes presentes, dos desmotivados estimulados, dos desanimados animados.

Ergamos as nossas bandeiras, porque dos fracos não reza a história.

Aproximemos o que temos do que todos desejamos.

A procissão só saiu agora do adro e há muito Campeonato pela frente!

Mas…

(*) Ex-Presidente do Núcleo de Veteranos da AAC/OAF