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José Belo

Futebol: Os 10 mandamentos

7 de Fevereiro 2017

Futebol. Que encantamento! Falar dele é recriar memórias, reconstruir heróis, cantar glórias e desencantos e assinalar paixões.

É pensar na maior «festa pagã» que se conhece, onde ir ao fundo do balneário e seus arredores é meio caminho andado para se perceber muito das suas misérias e grandezas.

Fora dele, fica essa marca de cultura popular, a expressão de peculiares afectos e emoções, de resignação e esperança, de alegrias e tristezas.

Em Portugal, somos um povo centenário com a paixão do futebol, enquanto estimulador da participação e do respeito por culturas, cores e religiões.

Para alguns, é até uma verdadeira religião, um modo de estar capaz de mobilizar a sociedade, unindo tudo e todos à volta das suas cores preferidas.

Por isso, essa argamassa reforça-se pelo facto de ter as mesmas regras ao longo de décadas, que todos conhecem e discutem, desde o Presidente da República até ao mais humilde cidadão. De tal forma que o jogo não pertence só aos futebolistas nem aos clubes; pertence, também, ao ‘povão’.

Não é por acaso que se discute a invasão dos «tecnocratas», que tudo julgam saber, explicando aos «ignorantes» as jogadas e os movimentos colectivos das equipas, com palavras novas, caras, que pouco dizem a quem gosta de futebol na sua genuinidade.

O futebol, para além das regras que pouco mudaram, tem o seu vocabulário entranhado, possui linguagem própria, muitas vezes guerreira, significando uma fluída cadeia de comunicação em massa, onde os espectadores se sentem parte do jogo.

E é com essa linguagem que ele tem sido desfrutado por todas as pessoas, de todas as idades, profissões e credos, ao longo de décadas e décadas, como verdadeiro fenómeno de globalização.

Por tudo isto, é preciso temperar muito bem os novos tempos onde os jogadores passaram a «activos» e os adeptos a clientes/consumidores; um tempo em que a era das receitas provindas dos lucros dos bilhetes de ingresso já lá vai; em que os investidores encaram, com olhos ‘gulosos’, os clubes, onde querem abanar a árvore das patacas a todo o custo, com lucros e mais lucros, onde os clubes parecem aeroportos com chegadas e partidas frequentes dos mais díspares interesses.

Alerto para o facto de, sem emoção no futebol, a médio prazo, poder ser morta a «galinha dos ovos de oiro».

É imperioso que haja calma na avidez, bom senso na relação entre o futebol e as suas raízes, os media e a sociedade.

Pois bem, uma figura de topo do futebol mundial, Van Basten, que foi recrutado pela FIFA como seu director técnico, deu voz, há escassos dias, a 10 medidas, que, segundo ele, deviam ser assumidas e que poderiam mudar radicalmente a face do desporto-rei.

Foi buscar respaldo a outras modalidades e quis inovar, também.

Falou de mudança na forma como são marcadas as grandes penalidades; na substituição dos cartões amarelos por saídas temporárias (durante cinco ou 10 minutos); na fixação de um limite de cinco faltas, tendo o futebolista de sair do campo, depois disso; em dar ao capitão de equipa, só e só, o exclusivo do diálogo com o árbitro; defendeu, ainda, que as substituições deveriam ser feitas com o jogo em andamento, aumentando até o seu número; quer também a redução da carga de desafios por época desportiva e, ainda, estimular a criação de um modelo de jogo de oito contra oito, através da sensibilização dos mais jovens.

Como medida de grande impacto defende o fim da linha do fora-de-jogo, como forma de aparecerem mais situações de perigo e mais golos.

Esta medida, a ser assumida, seria uma verdadeira revolução. Nas tácticas e nas estratégias. Nos desempenhos individuais e colectivos, numa ruptura que, no limite, se pode virar contra o próprio futebol por colocar tudo do avesso.

Falta referir o décimo mandamento e, nele, Van Basten não é de modas. Defende que os últimos 10 minutos do jogo passassem a ser controlados através de um cronómetro, para assegurar o tempo útil nesse período.

A bola andava, o cronómetro também; a bola parava e também parava o cronómetro.

Aqui, aplaudo a duas mãos. Acabariam 90 por cento das simulações, que só desvirtuam a moral e a verdade do jogo.

No meio disto, permito-me recordar uma medida – que defendo há muito – a prender-se com a necessidade de a constituição das equipas consistir em apenas 10 futebolistas (em vez dos actuais 11).

A razão é simples: criar espaço, no campo, pois quem assiste, com atenção, aos jogos verifica inúmeras situações onde o futebolista que recebe a bola é «assediado», logo, por quatro ou cinco da equipa adversária, sem poder respirar.

A parte estética do jogo está cada vez mais a ser maltratada com estas situações, que se repetem em todas as zonas do campo.

São fruto da grande evolução e cientificação das metodologias de treino, que preparam, com excelência, os jogadores, tornando o campo cada vez mais «pequeno». Mas, também, contribuem para tirar beleza ao jogo. Para que conste!

Em tempo: ao pegar no tema futebol, veio-me à memória uma situação merecedora de breve reflexão.

Pensei no Vítor Manuel, antigo jogador da Académica, e da sua ausência na liderança de uma equipa de futebol há já alguns anos. Que desperdício haver um treinador desta dimensão a ver os jogos da bancada, domingo após domingo!

Ele, que tem uma excelente visão organizacional da sua profissão, lendo muito bem o jogo, o desempenho dos futebolistas, seus erros e virtudes e sabendo, como poucos, driblar, em campo, a estratégia da equipa adversária.

O futebol fica mais pobre com ele longe dos bancos como treinador principal.

É só ler e ouvir as suas considerações sobre os jogos na comunicação social, onde ele, com as suas análises, consegue dar ao ouvinte ou ao telespectador uma visão clara sobre o desporto-rei, que vai sempre para além dos resultados, com perspicazes e oportunas considerações.

Que grande comentador se ganhou! Mas é pena não estar ainda no «banco» para reforçar aqueles que não querem que se mate a seriedade, dinâmica e estética do futebol.

(*) Ex-presidente do Núcleo de Veteranos da AAC/OAF