Coimbra  17 de Janeiro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

André ben-Mendes

Fundação de uma Associação Sefardita em Coimbra

8 de Janeiro 2021

Antecedentes.

Para reparar as trevas da perseguição e do silenciamento, para trazer e conservar a luz da memória como prolongamento da justiça inclusiva da dignidade humana para todos, acrescido do reconhecimento social de grupos minoritários e de minorias religiosas no amplo patrimônio da multiculturalidade Europeia;

Considerando, ademais, que o funcionamento do Tribunal da Inquisição Portuguesa esteve responsável, em Coimbra, pelo julgamento de mais de 10mil casos, entre 1541 e 1820, contabilizando mais de duas centenas de pessoas queimadas em praça pública, além da forca, do esquartejamento, do garrote, do empalamento, do corte de membros, a exposição em local de suplício, o cárcere perpétuo etc;

Nesse 18o. Nisan, 5781

(31 de Março de 2021),

na mesma Cidade Portuguesa de Coimbra, em alusão aos 200 anos para o Fim da Inquisição Portuguesa em 1821,

FUNDA-SE

Item Número 1.

Pela redução de conflitos e da violência por motivos da intolerância, em nome e benefício da paz (“mipnei darchei shalom”), define-se uma Associação que presta homenagem à memória das vítimas da perseguição religiosa exercida pela Inquisição Portuguesa, dentre as quais:

ll[a] Leonor Ribeiro (Coimbra, 1525/30 – Lisboa, 23 Out 1595; cc. Diogo Fernandes) filha [b] de Isabel Fernandes (cc. Tristão Ribeiro) filha [c] de Ana Mendes (cc. Henrique de Mendanha), a filha mais nova [d] de Isabel Lopes esposa de Moshê ben Avraham Boino. O físico (médico) Boino foi assassinado em 1497 por recusar a conversão forçada. Sua bisneta, Leonor Ribeiro foi presa, suportando o tormento em Coimbra sem denunciar seus parentes.

A descendência de Leonor Ribeiro (Mendes), neta de Ana Mendes e bisneta de ben Avraham Boino, fugiu para a Ilha da Madeira e, ainda buscando sobrevivência, um tronco familiar desenvolveu-se no Ceará Grande, então província do Brasil Colonial. Possa a memória de Leonor Ribeiro permanecer ligada ao vínculo essencial com o mistério da vida – seu legado já é de bençãos!

Item Número 2.

Trata-se de uma Associação privada, sem fins lucrativos, instituída por tempo indeterminado, de finalidade religiosa vinculada à tradição espiritual judaica, com o objetivo de promover a memória cultural judaica e sua Diáspora Sefardita a partir de Coimbra, orientada segundo uma perspectiva de responsabilidade e de justiça social pela vida (“mip’nei tikkun ha-olam”, uma reparação do mundo pela sabedoria da bondade e da compaixão). Como valor central para o funcionamento da Associação, elege-se o axioma judaico do “g´emilut chasadim”, portanto, a prestação do cuidado, da generosidade, da incondicionalidade, da bondade-amorosa a partir das quais a continuidade do mundo depende, valores também inclusivos da benevolência sem reciprocidade, pelo exercício no trato e respeito com a memória dos mortos.

Item Número 3.

A Associação reclina-se à preservação histórica, de modo especial, dos judeus nascidos ou com vínculos familiares, a partir das Judiarias históricas que funcionaram em Coimbra, também aqueles perseguidos, extraditados e julgados pelo Tribunal da Inquisição em Coimbra.

Item Número 4.

A Associação aspira reunir as condições materiais e espirituais para reinstalar uma Sinagoga Sefardita em Coimbra de acordo com os Rituais, Ritos e Costumes da Diáspora Sefardita Portuguesa, como passo fundamental para o surgimento de uma nova comunidade judaica local, vislumbrando a aspiração de, na Capital do Conhecimento, construir uma Escola de Formação de Rabinos em Coimbra.

Item Número 5.

A Associação tem por sua Missão:

a) promover a memória Judaica e memória das vítimas da Inquisição na Região Centro de Portugal e, particularmente, no Distrito de Coimbra;

b) promover o diálogo intercultural como ferramenta para a difusão dos valores da paz, da inclusão e da tolerância entre as novas gerações da Europa e de Portugal em relação às questões judaicas;

c) promover o intercâmbio e cooperação com organismos nacionais e estrangeiros vinculados às questões religiosas e culturais Judaicas;

d) difundir a língua e cultura Hebraicas;

e) promover a herança judaica como dimensão antropológica e constitutiva dos muitos povos no Ocidente, também pertinente à complexa formação étnica e cultural do povo Português, nomeadamente a presença judaica em Coimbra, pelo menos, desde o ano de 950 (“uineas quas emimus de Iudeis in Quires”; “as vinhas que comprámos dos Judeus em Quires”, atualmente Quimbres – Coimbra);

f) contribuir na preservação do patrimônio histórico material e imaterial do judaísmo, a nível Europeu, Português e Conimbricense;

g) promover estudos arqueológicos, arquitetônicos, sociológicos e históricos acerca da presença judaica em Coimbra;

h) contribuir para o desenvolvimento de um museu permanente da história judaica em Coimbra;

i) identificar visualmente a memória judaica em toda Baixa e Alta Histórica de Coimbra;

j) recuperar a localização exata, com quaisquer ruínas e vestígios, alusivos aos túmulos e restos mortais, então dessacralizados sobre o Cemitério Judaico na Judiaria Velha na Baixa de Coimbra;

l) desenvolver os temas acadêmicos dos sefarditas, dos marranos, dos anousim, dos conversos, dos cristãos-novos, dos cripto-judeus, em particular os grupos relacionados com os apelidos e famílias judaicas de Coimbra;

m) contribuir para a realização de atividades de natureza filantrópica, cultural, educativa, artística, científica, incluindo estudos e debates de cunho literário, histórico, sociológico, antropológico, genealógico, dentre outros saberes correlatos às questões Judaicas;

n) desenvolver atividades interdisciplinares nos campos dos estudos judaicos, dos estudos sefarditas e dos estudos inquisitoriais, incluindo cooperação com instituições do Ensino Superior, em vista da criação de programas de graduação e de pós-graduação, entre associações amplas nacionais e internacionais, incluindo promover ou patrocinar atividades editoriais;

o) contribuir para a formação qualificada de recursos humanos junto aos setores econômicos da Cidade de Coimbra, particularmente no âmbito do turismo cultural, do turismo histórico, do turismo genealógico, do turismo religioso judaico, do turismo da diáspora judaica etc.

Item Número 6.

SERÃO SÓCIOS:

Fundadores – aqueles que subscrevem o interesse de fundação na presente Associação, sejam judeus ou amigos não-judeus do judaísmo em Coimbra;

Efetivos – judeus natos ou convertidos, portugueses ou do estrangeiro, enquanto pessoas físicas residentes em Coimbra, assim inscritos como sócios da Associação e que participam da manutenção anual das suas atividades;

Investigadores – judeus ou não-judeus, portugueses ou do estrangeiro, enquanto pessoas físicas interessadas em contribuir na realização das finalidades da Associação e que participam da manutenção anual das suas atividades;

Correspondentes – judeus ou não-judeus, enquanto pessoas físicas ou pessoas jurídicas, domiciliadas em Portugal ou no estrangeiro, assim inscritos como sócios da Associação e que participam da manutenção anual das suas atividades;

Honorários – pessoas físicas ou pessoas jurídicas, domiciliadas em Portugal ou no estrangeiro, reconhecidos pela Associação como tendo prestado serviços ou donativos especialmente relevantes aos fins da Associação.

Convite.

Descendente dos Mendes de Beja-Évora pelo meu pai, segundo um horizonte dos mais de 600 processos que envolveram diretamente perseguição aos familiares Mendes na Inquisição de Évora, também sendo um Mendes por minha mãe, enquanto descendentes diretos por Brites Mendes como outra perseguida pela Inquisição, se você também estiver interessado em contribuir ou participar das reuniões (janeiro e fevereiro de 2021) de Fundação de uma Associação Sefardita em Coimbra, escreva-nos: andre_feitosa@msn.com

(*) Doutorando no Colégio das Artes, sobre a Inquisição de pessoas em Coimbra oriundas do Ceará-Brasil