Coimbra  20 de Novembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Figuras de outros tempos: O Patagónia

6 de Setembro 2019

Colégio da Trindade

No século XIX, o padre Patagónia conseguiu adquirir parte do Colégio da Trindade

 

Patagónia era a alcunha de um padre, professor de latim do Liceu de Coimbra no séc. XIX, que ficou conhecido pela sua grosseira ignorância e avareza. Dizia missa quotidianamente, ganhando entre 12 vinténs ou três tostões, e a sua fama de pregador devia-se menos aos dotes que exibia e muito mais ao tempo incansável dos seus sermões.

Muitas anedotas se contavam noutros tempos acerca desta figura:

Um dia sendo convidado por um lente de Matemática, para ir ver o curioso espectáculo de eclipse solar que ocorria nesse momento, retorquiu: – Hoje não posso por causa da aula. Mas amanhã é quinta-feira e pode contar comigo.

Tinha em sua casa estudantes que lhe pagavam uma mensalidade, cuidando-lhes do corpo e do espírito. Ensinava-lhes pelo poder da palmatória e conta-se que durante meses lhes deu por principal alimento feijão, respondendo um dia ao pai de um dos estudantes que se queixava da má alimentação do seguinte modo:

– Ora essa! Não come sempre a mesma coisa. Um dia é feijão vermelho, outro dia feijão branco; outro dia o fradinho; e o verde…

Era rara a festa da aldeia onde o Patagónia não aparecesse para ganhar uns dinheiros com os sermões, pois os festeiros gostavam muito dele por não ser muito careiro. Diz-se, até, que certo dia, um dos sermões foi pago com uma carrada de… esterco!

Seja como for a verdade é que o Patagónia conseguiu adquirir ao longo dos anos algumas dezenas de contos de reis que lhe permitiram, por exemplo, comprar o Colégio da Trindade após a extinção das ordens religiosas em 1834/35.

(*) Historiador e investigador

 

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