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João Pinho

Festejos populares de Coimbra – as fogueiras

22 de Junho 2018
Festejs populares de Coimbra - as fogueiras

Pavilhão dos festejos populares no largo de Sansão – actual praça de 08 de Maio – princípio do séc. XX (DR)

 

Existem abundantes referências bibliográficas às fogueiras de Coimbra, em especial a partir do séc. XIX. Ontem como hoje, os ensaios para as fogueiras de Santo António, de S. Pedro e de S. João começavam pelos finais de Abril/princípios de Maio, tornando-se mais grandiosos sempre que o ano coincidia com as festas da Rainha Santa, do Coração de Jesus ou da Senhora do Carmo.

As fogueiras realizavam-se em conhecidos e frequentados largos e ruas da cidade. Na baixa, por exemplo, realizavam-se: na rua Direita, em Montarroio, na rua de João Cabreira, no terreiro da Erva, na praça de 08 de Maio, na rua dos Oleiros, no terreiro do Marmeleiro, na rua da Sofia ou no Arnado.

Por norma classificam-se as fogueiras em duas tipologias:

– As espontâneas e populares, nas quais se enfeitava o recinto cravando-se ao centro um pinheiro ou mastro alto com festões de verdura (buxos, murta, alecrim e flores) para outros mastros em redor ou paredes das casas, enfeitando-se o cenário com bandeiras, lanternas e balões de papel ao estilo veneziano. Ao centro, num estrado ou palanque, ficavam os tocadores e mandadores.

– As fogueiras com pavilhões, construídos e ornamentados, onde se exibiam os ranchos previamente ensaiados, com músicas e letras feitas propositadamente para a ocasião. Uma moda que consagraria um estilo musical que teve seu começo no pátio da Inquisição; cantavam-se marchas, fados, baladas e canções, destacando poetas e músicos de Coimbra, como é o caso do bem conhecido e fecundo compositor José Eliseu.

Acesa a fogueira começavam as canções populares e danças de roda, em que tomavam parte tricanas, estudantes e futricas. Os folguedos mais duradouros eram os de S. João, que duravam até ao romper do dia cumprindo o ditado: “na noite de S. João ninguém se deita”.

No cancioneiro conimbricense avultam imensas músicas e letras correlacionando a poética da cidade, as relações sociais, os espaços e afectos – algumas das quais consideradas joias da poesia popular. Assinalo os seguintes exemplos:

(Sobre Coimbra)

Ó cidade de Coimbra,

Arrazada seja tu

Com beijinhos e abraços

Não te quero mal nenhum.

 

(Sobre o Mondego)

Ó areal do Mondego,

Não sei como tens areia

Quer de noite, quer de dia

Meu coração te passeia.

 

(Sobre os amores e enamoramentos)

Em Coimbra tenho o corpo

Em Santa Clara os sentidos

No convento os meus amores

Lá ficaram escondidos.

(…)

Lembras-te ainda, Maria,

Da noite de S. João?

Tu contavas as estrelas

Eu as areias do chão.

(…)

Quem é este passarinho

Que no ar faz ameaços?

C’o biquinho pede beijos

Co’as azinhas pede abraços.

No quadro mais vasto das tradições populares portuguesas, as fogueiras afiguram-se como um caso de estudo, por acusarem notável resistência e adaptação aos tempos modernos, contrariando assim a regra que tem caracterizado a maioria das manifestações da nossa etnografia, etnologia, folclore e cultura popular.

(*) Historiador e investigador

 

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