Coimbra  24 de Julho de 2021 | Director: Lino Vinhal

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João Pinho

Faz 90 anos que a revista Presença iniciou a publicação (1927-1940)

9 de Março 2017
revista Presença

O primeiro número da revista Presença

A 10 de Março de 1927 iniciou publicação, em Coimbra, a Presença – Folha de Arte e Crítica, uma das mais influentes revistas literárias portuguesas do Séc. XX. Foram publicados 54 números até à sua extinção em 1940, por diferentes entendimentos ideológicos quanto ao rumo a seguir.

A sua fundação deveu-se a João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e José Régio e, a sua importância, advém das colaborações dos homens que fizeram o Primeiro Modernismo como Adolfo Correia Rocha (mais tarde conhecido pelo pseudónimo Miguel Torga), Aquilino Ribeiro, Edmundo de Bettencourt, e toda uma geração de poetas, prosadores, pensadores e artistas plásticos, a que se atribuiu a designação abrangente de «a geração da Presença».

A arte foi matéria que ocupou grande destaque na revista, onde se publicaram textos de Diogo de Macedo, Almada Negreiros, Arlindo Vicente, Sarah Afonso, Maria Helena Vieira da Silva, entre outros.

Logo no texto do primeiro número e primeiro parágrafo, se definiu o programa da revista, o seu grande objectivo: «Em Arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artistíca. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe».

O diagnóstico sobre a literatura contemporânea apontava dois vícios que minavam a capacidade inventiva e criadora dos artistas portugueses: a falta de originalidade e de sinceridade. Assim, os “presencistas”, rejeitavam a falsa originalidade, fruto do calculismo, e todos aqueles que pretendiam ser originais sem personalidade própria, pelo que conceitos como excentricidade, extravagância ou bizarria deviam ser levados em conta pelos críticos, mas com certo distanciamento e frieza de análise.

Com o tempo, a estas razões primaciais outras foram norteando a revista, fazendo crescer a importância da mesma no universo literário português: a criação de uma literatura mais viva e livre, oposta ao academismo e jornalismo rotineiro, primando pela crítica, pela predominância do individual sobre o colectivo, do psicológico sobre o social, da intuição sobre a razão. Por isso elegeu como referencias ou mestres os artistas da Revista Orpheu (Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro ou Vitorino Nemésio), muitos dos quais ainda colaboraram na Presença.

A revista foi, também, importante na difusão de uma segunda fase do Modernismo, mais crítica e teorizadora do que criadora. Aos nomes dos fundadores se associaram os de Albano Nogueira e Guilherme de Castilho, bem como de José Bacelar, José Marinho, Delfim Santos, Saul Dias, Fausto José, Francisco Bugalho, Alberto de Serpa, Luís de Montalvor, Mário Saa, Raul Leal e António Botto.

A poesia de alguns “presencistas” esteve na base dos textos e das composições do Canto de Coimbra e do Fado cantado por Amália Rodrigues. Na revista divulgaram-se, também, as principais obras de escritores europeus da primeira metade do Século XX, tais como Marcel Proust, Paul Valéry, Guillaume Apollinaire e Pirandello. As páginas da Presença serviram ainda para a promoção e intercâmbio literário com vários poetas e prosadores brasileiros, à margem das iniciativas oficiais.

Há 90 anos Coimbra dava uma lição literária ao país, fazendo jus ao conhecimento que sempre a caracterizou.

(*) Historiador e investigador

Miguel Torga

Miguel Torga, um dos primeiros colaboradores da revista