Coimbra  26 de Junho de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

Falta-nos ser…

11 de Março 2019

A situação de um amigo, em desmazelo total, a viver num buraco, deslavado, com roupas tomadas por nódoas teimosas e deslocado da vida, exige que faça aqui uma reflexão que nos possa fazer avaliar a forma como vivemos, estamos e nos damos.

Ele tinha cargo de evidência. Vivia bem.

Um dia, apenas com 52 anos, um AVC tramou-o, obrigando-o a deixar as aulas e de exercer a Medicina.

Ficou, durante uns anos, em casa dos pais, após o que vendeu a vivenda.

E decidiu, já desalentado com e pela vida, refugiar-se num esconso buraco para não continuar a viver. Para passar os dias até que a morte o pudesse levar para lugar tranquilo e onde não ouvisse ruídos que não o deixassem ser fustigado por palavras azedas ou pelos silêncios do seu tegúrio…

Um dia, ainda bem próximo, os colegas dos tempos do Liceu, o D. João III, em Coimbra, decidiram promover um almoço de confraternização. Foram alguns, uns vinte.

Foram buscar esse ex-colega. Quando chegou, na viatura do M. Martins, percebemos logo que vivia postergado… em tudo.

Demos-lhe atenção. Quisemos saber como estava a viver.

Percebemos que mal e abandonado.

Fizemos uma jura de que íamos tratar dele e tirá-lo da indecência.

Foi o que um grupo de nós já fizemos. Somos uns cinco.

Um dos nossos já o foi buscar para o tentar recompor e o trazer à vida digna.

Estamos a fazer por o reabilitar pessoal, física e humanamente.

Agora, já lavado, já revestido, já conversado, já a tomar a medicação (não a tomava faz uns oito meses) e já reencontrado como homem, como ex-colega e como amigo que foi e que é, está a tentar reerguer-se, a repor-se, a reposicionar-se, a reprogramar-se, a refazer-se e a revalorizar-se.

Se voltar ao mesmo sítio espatifar-se-à e mergulhará num sarcófago que o prenderá a uma vida sem sentido. Ficará prisioneiro do espaço e não terá vida nem futuro.

Por isso, os ex-colegas e amigos estão a fazer de tudo para lhe dar a alegria de viver, a dignidade, a satisfação, a felicidade e a força para se motivar a reganhar a vida.

O problema contemporâneo, entre andarmos dispersos com coisitas, atarefados com os telemóveis, virtualizados com os computadores, perdidos nas estradas de uma vida seca e possuídos pelo ter, é não sabermos, a maioria, Ser.

Ser factor de união, de diálogo, de ajuda, de suporte, de promoção do diálogo e das palavras, de ir defender e tirar da miséria humana os nossos ou os que não têm voz…

Ser mensageiro da boa nova, da fraternidade, da mão estendida para puxar, da entrega, da hospitalidade, do serviço aos outros e do amor.

Se nos faltar o Ser… acabaremos uma sociedade impiedosa, egoísta, invejosa e sem capacidade para amar e olhar pelos mais fracos e desprotegidos.

Ontem fomos tudo, hoje – por contingências – virámos nada, farrapos de vida… As voltas que a vida dá e leva.

Haja quem, como este grupo, continue a seguir as pisadas do Evangelho e do mestre cónego Urbano Duarte.

 

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