Coimbra  7 de Março de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

Ex-Hospital Militar 2: O poder político que defina o futuro

22 de Janeiro 2021

O domínio da Saúde Militar, em Coimbra, tomando por base a existência de um edifício que foi Hospital das Forças Armadas e, também, das Forças de Segurança/PSP e GNR, desde 1926 a 2009, é hoje caracterizado pela existência de um Centro de Saúde Militar.

Sem opiniões apaixonadas ou visões utópicas, o tema, dado o melindre e a sua complexidade, exige uma análise profunda da parte do poder central, ou seja, pelos titulares das pastas da Defesa e da Saúde, mas sempre em consonância com os representantes do povo/partidos quer os que têm assento na AR quer os edis municipais e os membros da AM de Coimbra.

Convirá não esquecer que o HM2 foi desarticulado, passando a Centro de Saúde, em 2009. Na altura, as vozes que se ouviram, pelo menos em Coimbra, não tiveram eco em Lisboa, nos centros de decisão.

Mas, e mesmo que tivessem chegado ao Terreiro do Paço da Capital, a ordem não poderia ser outra. Contextualizando: entre 1961 e 1974, o número de militares, face à Guerra do Ultramar, andaria na casa dos 200 mil homens, repartidos pelos três Ramos das Forças Armadas. Por essa razão, e na Região Militar do Centro, existiam mais de duas dezenas de quartéis. Com a descolonização, e como se sabe, o número de efectivos foi sendo reduzido. Acresce recordar que, e com a não obrigatoriedade do cumprimento do Serviço Militar, as nossas Forças Armadas têm, presentemente, o menor contingente de sempre, cerca de 25 mil homens, no total dos seus Ramos. A Região Militar do Centro (já extinta) não tem mais de seis Unidades, com um milhar e meio a dois, de militares.

Ora, uma estrutura como a do Hospital Militar 2, sedeada em Coimbra, não tinha razão de ser, presentemente, em termos militares, até porque os aposentados e os elementos das Forças de Segurança passaram a estar agregados ao SNS e, em parte, ao tal Centro de Saúde Militar.

Ultimamente, verificou-se, com o surto da covid, uma tomada de posição por parte da bancada do PS na Assembleia Municipal de Coimbra, a qual se manifestou preocupada, em Dezembro passado, numa sessão desse Órgão Autárquico, com o assunto, tendo apresentado uma moção que foi aprovada. Não será de desclassificar, é preciso evocá-lo, o facto de, e com o progressivo desmantelamento daquela valência militar, do sector da Saúde, se erguerem figuras e cidadãos de Coimbra, em razão do esvaziamento dessa estrutura. Mas o clamor vem tarde e os tempos são outros.

Só 2 500 militares

a Região Centro

Quanto sabemos, junto de fonte castrense, o certo é que as Forças Armadas não têm orçamento para a continuidade de uma Unidade desse tipo, em Coimbra, assim como se trata – é preciso saber aplicar, devidamente, as parcas verbas dos nossos impostos – de um dispêndio fora do SNS. Ora, um país com, e apenas, 25 mil militares, de que uns 10% estão na Região Centro, não se pode dar ao luxo de ter, e só para si, um Hospital ou uma Estrutura de Saúde, mínima que seja.

Convirá dizer, também, que, e como já o deixámos explícito, Portugal tem o dever de traçar um Plano de Saúde que, e face ao presente momento, tem de ter em linha de conta as suas realidades, a militar e a civil, além das suas fragilidades financeiras e, ainda, as de capacitação dos seus meios humanos na área, especialmente médicos e enfermeiros. Neste momento, manda a prudência e a frieza de avaliação, que os políticos, os do poder central e os do local, se reúnam e, em sintonia, possam planificar um futuro nobre e enquadrado para as instalações do ex-HM2/Coimbra, actualmente Centro de Saúde Militar de Coimbra, com localização soberana, de grande dimensão e com alguns recursos materiais. A covid não pode servir de para “arma de arremesso”.

Não servirá a Coimbra, à Região, aos Cidadãos e ao próprio País a continuidade de troca de palavras, de ataques e de críticas inócuas sem se aferir a realidade com um estudo sério para se programar e se decidir, sem ser em cima do joelho. O que importa, mesmo, é dar uma solução adequada a uma estrutura que cumpriu, a seu tempo, com o dever, de tratar. Os tempos são outros. Adormecer no passado, sem se traçar o futuro, não cuidará a ninguém…Um espaço daqueles não merece abandono, como outros que a cidade já tem como monos e sem utilidade alguma. Confinados em guerrilhas intestinas, entre Instituições e Entidades do Estado, esses “elefantes” apodrecem para desgraça de todos e da Nação…O antigo Hospital Pediátrico e os Quartéis de Santa Clara, abandonados aos ratos… já são um péssimo exemplo e sem qualquer solução.

História do HM2

Deixo-vos com um traço da História do HM2 de Coimbra:

A valência Hospital Militar Regional n.º 2, localizado em Coimbra, foi criado em 1926, tendo prestado, durante mais de 80 anos, apoio sanitário aos militares do Exército e aos seus familiares, das guarnições de Abrantes, Aveiro, Coimbra, Entroncamento, Leiria e Tomar. Prestava, e também, apoio aos militares da Marinha, Força Aérea e Guarda Nacional Republicana e membros da Polícia de Segurança Pública, bem como aos seus familiares da Região Centro.

O mesmo estabelecimento de Saúde incluiu, em permanência, os seguintes serviços clínicos: Medicina Interna, Cardiologia, Gastroenterologia, Pneumologia, Psiquiatria, Neurologia, Pediatria, Cirurgia Geral, Estomatologia, Ginecologia, Obstetrícia, Oftalmologia, Ortopedia, Otorrinolaringologia, Urologia, Medicina Física e de Reabilitação e Dermatologia. Disponha, ainda, de um serviço de urgência, bloco operatório, farmácia hospitalar e laboratórios. A sua capacidade de internamento era de 130 camas.

O estabelecimento foi criado em 1911 como Hospital Militar de Coimbra, sendo instalado no edifício do antigo Convento de Santa Teresa. Em 1918 passou para o edifício que hoje ocupa, o qual havia sido construído em 1606 pelos Carmelitas e que fora Colégio Universitário de S. José dos Marianos (1606-1848), Hospital dos Lázaros (1848-1851) e Real Colégio das Chagas (1851-1910).

Na sequência da criação do Hospital das Forças Armadas em 2009, o HMR2 foi desactivado como hospital e transformado em Centro de Saúde Militar de Coimbra.