Coimbra  24 de Agosto de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Nuno Calvão

Europa, globalização, democracia e a Casa dos Pobres

12 de Abril 2019

Avizinham-se eleições para o Parlamento Europeu, momento fulcral para a vida da Europa e do mundo. A União Europeia, com apenas 61 anos, constitui o maior êxito político mundial dos nossos tempos. Êxito porque garantiu a paz, objectivo maior da integração de Estados soberanos tão diversos; êxito porque o espaço europeu constitui uma das regiões mais prósperas do mundo.

Na era pós-Trump, com a ameaça à ordem global fundada no multilateralismo e na relação transatlântica, a UE deve impor-se como referência: ao invés do regresso aos proteccionismos, a Europa deve promover maior abertura do comércio internacional, na Organização Mundial do Comércio e mediante a celebração de acordos internacionais que garantam o cumprimento de determinados standards sociais e ambientais por outras organizações internacionais ou Estados terceiros; em detrimento da negação científica a mascarar egoísmos económicos, a Europa tem de liderar o combate às alterações climáticas, com forte aposta nos Acordos de Paris; em tempos de muros, a Europa tem de pensar na imigração como uma janela de oportunidade para o “inverno demográfico”, no quadro das possibilidades de uma integração digna de todos.

Ou a Europa lidera a nova ordem mundial emergente ou resigna-se a um papel de “anão político”, com riscos de implosão. Na verdade, os nacionalismos (Brexit, Catalunha,…), alicerçados em perigosos populismos, vão ressurgindo, com perigos evidentes para a integração europeia, para a paz mundial e para a própria democracia. Exponenciados por redes sociais sem freios, os extremismos – de direita e de esquerda – pululam por esse mundo fora. Parece realidade longínqua, mas a extrema direita governa em Itália e na Áustria, influencia decisivamente na Suécia, tem peso crescente em França, Alemanha e Holanda… e a extrema esquerda, assumidamente antieuropeísta, dirige os destinos da Grécia (em aliança com a extrema direita!), condiciona a vida política de Espanha e paralisa o desenvolvimento económico-social sustentado e sustentável de Portugal.

Salvar a democracia e prosseguir uma globalização (mais) justa e regulada são objectivos a alcançar com o reforço da política, respaldada no voto popular, e não pela defesa da governação da tecnocracia, na base da moda das administrações independentes (nos Estados Unidos da América, nos Estados europeus, etc..) e do propalado défice democrático da União Europeia. Para além do combate à despolitização e do reforço da democracia representativa, é imperativo que o poder político eleja como prioridade da acção pública o combate às desigualdades sociais e à pobreza.

Estudos recentes de universidades renomadas mostram que as condições de vida nunca foram tão boas: em 1950, três quartos do mundo vivia em situação de pobreza extrema; em 1981, esta cifra era de 44 por cento; em 2016, a parcela da população nesta condição caiu para os 10 por cento. Resumidamente: não podemos deixar de ter consciência de que, à escala global, a pobreza absoluta tem caído, o trabalho e as taxas de mortalidade infantil diminuem, as taxas médias de educação e de literacia crescem significativamente. Mesmo assim, o número de pessoas com fome no mundo é actualmente igual à população dos EUA, Indonésia e Paquistão!

Também não podemos esquecer que, no mundo ocidental, entre 1973 e 2015, a produtividade cresceu 73, 4 por cento enquanto os salários aumentavam apenas 11, 1 por cento. Por outro lado, se, nos Estados Unidos da América, em média, em 1965, um director executivo de grande empresa ganhava 20 vezes mais do que um trabalhador, em 2013, esse director ganhava 296 vezes mais do que os empregados… É incontestável também a estagnação, ou mesmo o recuo, dos rendimentos da classe média dos países ocidentais.

Em nome da dignidade da pessoa humana, nenhum Estado pode demitir-se da responsabilidade em relação às grandes causas do combate à fome, à pobreza e às escandalosas assimetrias económicas e sociais. Se é indiscutível que a coesão social e o convívio pacífico entre povos dependem muito do modo como os poderes públicos enfrentam estes dramas, cabe seguramente também à Sociedade Civil, a cada cidadão, um papel determinante nesta tarefa (cristã) de ajuda ao próximo (mais) desfavorecido. A lógica da subsidiariedade, do conhecimento efectivo de quem mais necessita é cada vez mais a chave do sucesso do cumprimento dos direitos humanos mais básicos.

Neste quadro, em Coimbra, é louvável a acção da Casa dos Pobres. Participo, por isso, com imenso gosto e no cumprimento de um dever de consciência, na missão de alertar para que todos e cada um de nós, na medida das suas possibilidades, colaborem com esta instituição de solidariedade que tanto necessita de ajuda para continuar a apoiar os mais desafortunados. Trata-se de imperativo de solidariedade, ético, que a cidade não pode deixar de cumprir. Coimbra é grande e não falhará a este repto. Entidades públicas, privadas e sociais não se alhearão da nossa Casa dos Pobres! É o que antevejo e desejo.

Impõe-se, por fim, uma palavra de reconhecimento ao Lino Vinhal, Homem bom e cidadão de causas, pela nobre iniciativa de dar a conhecer a Casa dos Pobres e as suas dificuldades nos seus “Campeão” e “Despertar”.

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