Coimbra  17 de Janeiro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Eu voto à Esquerda

12 de Janeiro 2021

Eu sou socialista (não sou apenas filiado no Partido Socialista), e perante as eleições Presidenciais em 2021 em que, havendo ou não havendo indicação partidária para um voto personalizado (neste caso não havendo), mantenho a minha postura de voto livre.

Contribuí para o combate à ditadura e para a institucionalização da liberdade de opinião (e portanto da liberdade de voto), pelo que não poderia em consciência (e apenas essa me guia) deixar de votar, optando pela abstenção, porque a vida é feita de satisfação, a par do desgosto, da ilusão e da desilusão, e tal se reflecte, da mesma forma ou até mais intensamente, quanto à política e aos seus protagonistas, motivando por vezes afastamento de crenças, convicções e realidades que se querem ignorar por traumáticas.

Qualquer cidadão tem assim o direito de renegar no seu todo a política, isolando-se na sua relação com as estruturas decisoras, dizendo mal do que está mal e do que não estará. Mas perderá a legitimidade para contestar o que considera mal, pois não votando, ausentou-se do seu contributo como direito e dever, e não poderá (mesmo que queira) estar desligado das suas obrigações que os decisores (mal ou bem) nos exigem como contribuintes, utentes e cidadãos.

Estamos num quadro em que a decisão maioritária dos portugueses quanto à seleção do futuro eleito Presidente da República é clara, e como tal tem de ser respeitada, mas não obrigatoriamente seguida apenas para se votar no vencedor, esquecendo princípios, lembrando conveniências, aproveitando a coexistência pacífica até um dia…

Ser socialista é ser, por palavras e obras, a favor do estado social, pelos direitos humanos, pela promoção da igualdade, pelo bem comum dos cidadãos, pela garantia e qualidade do serviço público, pelo aproveitamento das capacidades das pessoas e suas formas organizativas em trabalho, empresas, habitação, saúde, educação.

Este é também o significado quanto a ser de Esquerda, sem discriminação de tendências, culturas ou grupos vulneráveis e de risco, sem caridade ou favores, sem usurpação de direitos, sem traficância de interesses. Com deveres, com generosidade, com solidariedade, com progresso.

Em democracia, a Direita tem o seu espaço próprio, as suas formas de intervenção legítima (como a caridade), o seu liberalismo e o estigma, a presunção das elites e dos poderosos, a sua sobranceria e pedigree, o seu desempenho classista, através da Direita moderada. Embora também apascentem radicalóides, trauliteiros e neo-nazis.

À Esquerda ou à Direita, o respeito deve prevalecer, a liberdade deve ser apanágio, a urbanidade deve ser bilateral, as emoções são condição e consequência em debate e civismo.

Cada um pode posicionar-se em que campo se situa, não demonstrar o que não quer seja em atitude pública, ou organizar-se de acordo com o seu livre pensamento (que não tinha livre expressão até ao 25 de Abril). Ser socialista não é o caos, ser de Esquerda não é uma desgraça. Ser de Direita não é uma opção progressista, não tem a exclusividade da necessária estabilidade.

Como concebe o socialismo? Assim respondiam na revista “Seara Nova”, em Novembro de 1973, em pleno regime de ditadura, algumas personalidades do meio intelectual e político de então: é a estruturação de uma nova sociedade, que criará um tipo novo de homem, motivado para o fenómeno colectivo (António Galhordas); é igual a liberdade, mas liberdade verdadeira; em nome de utopias se têm escrito as mais belas páginas da história da humanidade (António Lopes-Cardoso); não é a questão da propriedade dos meios de produção, mas sim a questão das classe sociais numa sociedade economicamente desenvolvida (António Reis); é uma sociedade assente no trabalho e na solidariedade entre os homens, com igualdade de oportunidade para todos, independentemente de raças, de sexos, de crenças ou de convicções (Armando Bacelar); é um sistema que elimina as causas não naturais da desigualdade e desenvolve as aptidões intelectuais, físicas e afectivas de cada indivíduo nele harmoniosamente integrado (Fernando Namora); é o sistema social que deverá realizar a abolição da exploração do homem pelo homem (Francisco Marcelo Curto); é aquele que dará importância primordial aos interesses da maioria da população (Gilberto Ramos); é desejar Pão, Paz, Cultura, Liberdade, Progresso (Humberto Lopes); é, citando Jaurés, caminhar para o Ideal vivendo a realidade (José Magalhães Godinho); um Estado socialista terá de consagrar institucionalmente as liberdades democráticas que as primeiras revoluções socialistas entenderam subestimar (José Medeiros Ferreira); é uma pergunta inoportuna, inadequada e gravemente alheada ou inconsciente dos condicionalismos (José Saramago); é uma utopia (Luís Amado de Passos); é um sistema social (Sottomayor Cardia); é a superação do capitalismo (Vital Moreira).

Eu voto à Esquerda. Ana Gomes (confusão entre Direito e Justiça), Marisa Matias (oportunidade e inconveniência), João Ferreira (sectarismo e ausência de inovação), não são os meus ídolos, por essas idiossincrasias. Mas têm algumas raízes da utopia, promovem os direitos humanos, fazem acreditar que ainda há diferenças entre Esquerda e Direita, que o mundo não é selfies e vichyssoise, nem discurso de ódio e violência física, nem primarismo e vontade de protagonismo, nem marcação de território e liberalismo.

Assim, votarei à Esquerda. Sem engolir sapos, sem virar a cara para o lado, sem complexos. Não será o meu voto que dará a vitória a um dos candidatos da Esquerda. Mas contribuirá para que a Esquerda demonstre a sua presença, humanidade e solidariedade, embora nem sempre a estratégia e a táctica de líderes da Esquerda na selecção dos candidatos sejam as melhores, as mais coerentes, as que nos fazem acreditar que este não é um mundo cruel.

Em democracia, há direitos. Há o direito a ser. De Esquerda, de Direita ou do Centro. Há o direito a não ser. De pensamento e ideias, de intervenção e de acção.

E há deveres. Há o dever de respeitar os direitos. De quem é de Esquerda, de Direita ou do Centro. E de quem não o quer ser. Seja do que for.

Há o dever de aceitar a liberdade e a democracia, de cumprir a urbanidade e o decoro, a educação e a convivência, a não discriminação e a humanidade, a não usurpação e o sentido de Estado.

Ser socialista não é pecado. Ser de Esquerda não é ter piolhos, sarna ou lepra. Ser de Esquerda é ser solidário, ser pelo Estado social, ser humano. Em democracia não é crime ser de Esquerda. Eu voto à Esquerda.

(*) Médico e eleito do PS na AM de Coimbra