Coimbra  21 de Outubro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Etnografia, etnologia, folclore e cultura popular: Os trajes regionais

21 de Junho 2019

18 - João Pinho trajes

Vendedeiras (Grupo Folclórico da Universidade de Coimbra)

 

O traje nasce em perfeita concordância com o meio geográfico onde o homem constrói o seu habitat. Os materiais usados podem ser de origem vegetal (linho, estopa, algodão, palha, etc.) ou de origem animal (lã, seda, pele de ovelha, cabra, bovino, etc.).

Em Portugal não existe um traje nacional, a forma de vestir varia de região para região. Citando o grande estudioso Nelson Correia Borges o traje é, pois, um dos valores culturais que melhor exprimem a maneira de ser e a arte de um povo, em suma, um dos melhores expoentes da sua individualidade.

O traje regional divide-se por categorias, em natureza da sua função e do estatuto social. Nos trajes de trabalhos temos: cavador, vindima, apanha da azeitona, pastores, moleiros, zézito (moço das casas abastadas, que acompanhava o gado e realizava outras tarefas mais simples), lavadeira, mulher da lenha (ia para Coimbra vender lenha ou ajudar a descarregar nos cais da cidade as barcas serranas que traziam lenha de Penacova), ceifeiras, vendedeiras (tremoceira, vendedeira da feira, vendedeira de “bolos de cornos”), feirantes, festas e romarias (romeiro e romeira), domingar (lavradores ricos e remediados), ver a Deus (traje de missa e de quaresma), meia senhora, bairradina.

A forma de vestir das gentes da região de Coimbra sofreu várias influências. A de Coimbra, por exemplo, está espelhada no traje de vendedeira, mulher que se deslocava das aldeias às feiras e à praça do Comércio, para aí vender aquilo que a “terra dava”: hortaliças, feijão, batata, milho, etc. O uso do xaile e a sua forma de colocar, sob o ombro direito e traçado sobre o ombro esquerdo deixando o braço e a mão direita livres, são características do retoque das mulheres de Coimbra. Também o uso da mantilha, no traje de domingar da mulher, chegou de Coimbra.

A influência da Bairrada e da Gândara está espelhada no uso, pela mulher, do chapelinho de veludo, com pena, e enfeitado com lenço bordado e flores de papel, no caso dos dias de festa e romaria. O traje de bairradina e das cores vivas e garridas de alguns tecidos e da policromia do vestuário da mulher, também estão presentes.

O traje da mulher tinha um elemento fundamental, o chapéu de veludo, chapelinho de veludo de abas coladas à copa e pena, também conhecido por gandarês ou bairradino.

O chapéu de veludo de meia aba com laço lateral era comum e usado no trabalho do campo. O chapéu de veludo de meia aba e pena de pavão era usado aos domingos e dias

de festa. Quando a mulher ficava viúva retirava a pena do chapéu.

O lenço era de lã, os cachenés de sede e de chita de Alcobaça. A mulher colocava o lenço a gosto ou em função da época do ano ou do acto cerimonial. Poderia ser atado por cima do chapelinho de veludo, preso das abas do chapéu de veludo, atado atrás da nuca e ponta para o lado ou centrada, lenço com nó atrás da nuca e as pontas por cima deste, com novo nó. E nos actos cerimoniais, nomeadamente religiosos, tapava toda a cabeça deixando visível o rosto, com envolvência do pescoço atando atrás.

(*) Historiador e investigador

 

 

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