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João Pinho

Etnografia, etnologia, folclore e cultura popular: O quebranto

25 de Outubro 2019

Quebranto

Num prato coloca-se a água e umas gotas de azeite

 

O quebranto é, por definição baseada nos dicionários da língua portuguesa, um estado de torpor, cansaço, languidez, quebrantamento. Abrange uma suposta influência maléfica de feitiço, por encantamento à distância; efeito malévolo, segundo a crendice popular, que a atitude, o olhar e outros atributos de algumas pessoas com poderes produzem em outras.

Em muitas localidades, o povo atribui, por exemplo, a dor de cabeça a “mau-olhado” ou a “mal de inveja”, curando-se o quebranto para o mal sair. Com um prato onde colocam a água e umas gotas de azeite, algumas mulheres com o dom de tirar o quebranto, dizem:

Jesus Cristo de Jerusalém, tire o mal a quem no tem

Se isto não é verdade, Jesus Cristo bem no sabe

Zé, tu tens quebranto

Dois to prantaram, três to hão-de tirar

Que são as Três Pessoas da Santíssima Trindade

Que é Pai, Filho e Espírito Santo.

Assim como o sol nasce na serra e se põe no mar

Donde este mal veio para lá torne a voltar

Se isto não é verdade, Jesus Cristo bem no sabe

Pelo louvor do Santíssimo Sacramento

Tirai o mal ao meu Zé e lhe bote o bem lá dentro

Universalmente conhecido, o mau-olhado é o mal de ojo, na Espanha; mal-occhio, para os italianos; evil eye, para os ingleses e mati, para os gregos. Na Grécia existe, inclusive, o famoso olho grego, um talismã contra a inveja e o mau-olhado, que funciona também como um símbolo da sorte e é um poderoso instrumento contra energias negativas. No Brasil, o quebranto está sempre relacionado ao feitiço e a influências maléficas, sendo considerado uma doença causada pelo mau-olhado, também conhecida como quebrante.

O agouro

O agouro é um tema de origem latina – augurium – com o significado de consulta das aves, e sinónima de auspicium. É um presságio ou prenúncio de ocorrência futura, auspiciosa ou funesta. Um provérbio popular bem conhecido alerta: o mocho, o corvo e o besouro são animais de mau agouro.

Os agouros podem assumir duas modalidades: os que anunciam um mal genérico e aqueles que pressagiam uma maleita particular.

No sínodo de Lisboa de 1403, os agouros foram referidos como pecados antigos, cuja absolvição estava reservada a um bispo. Nessa reunião deliberou-se aplicar a pena de excomunhão aos praticantes de sortes, adivinhações, agouros, esconjuros e encantamentos, bem como a todos quantos invocassem demónios por intermédio de escritos ou usassem a hóstia para fins ilícitos.

A actividade de sorteiros, feiticeiros e adivinhadores foi censurada nos sínodos de Braga (1477), Porto (1496) e Guarda (1500).

Diz-se que a Páscoa em Março é de mau agouro (ou fome ou mortaço), tal como chover em domingo de Páscoa – sinal de que as nozes irão apodrecer.

Como antídotos ou modos de evitar o agouro, a tradição popular propõe: para a varejeira ou o besouro preto abandonarem a casa voltar um banco de pernas para o ar; quem oferece palitos à mesa não casa, mas batendo com o pé no chão o agouro vai-se; duas pessoas que se lavem na mesma água brigarão, mas para evitar a briga basta cuspirem na água; derramar azeite é sinal de desgraça, enquanto entornar vinho significa alegria.

(*) Historiador e investigador

 

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