Coimbra  19 de Novembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Etnografia, etnologia, folclore e cultura popular: A cura das lombrigas

18 de Outubro 2019

Dores de barriga

As lombrigas eram parasitas que proliferavam nos intestinos, sobretudo das crianças, abundando na tradição popular as mais diversas formas de curar este mal.

Conhecemos o caso de Domingos Francisco, trabalhador da freguesia de Eiras, que veio a ser acusado na visita pastoral de 1718. Conta este homem, nas suas declarações, «quando curava de lombrigas fazia pela sua mao hum escripto em que escrevia as palavras seguintes: Jesus Maria a sabedoria de Deos Padre e limpeza de Deos Filho a pureza de Deus Espirito Santo livre a fulano, escrevendo aqui o nome do enfermo, de todo o mal das lombrigas que lhe atormentam seu corpo; pela honra de Nossa Senhora e do santo Christo se convertam em agoam, amen Jesus. E sem fazer mais cerimonia lhes lançava o dito escripto ou lho mandava botar ao pescoço por huma donzela que se chamasse Maria havendo a, e não a havendo fosse por outra qualquer pessoa. E que tinha para si que se não fosse por Maria e esta nao fosse donzela nam seria de tam bom efeito o dito escripto, por entender que estas nao tinham tantos pecados como aquelas e por isso ordinariamente recomendava que as ditas Marias fossem meninas de pouca idade».

Um testemunho impressionante que guarda várias particularidades, a saber: o forte poder da palavra ao ser escrita ou pronunciada; o nome de Maria invocando as virtudes de Nossa Senhora; a moça ser donzela e a ausência de corrupção; e a destruição do mal pelo poder da sua transformação em água – forma transcendental de se sararem os doentes.

O alívio da asma

A tradição e crença popular sugere o alívio da asma fumando a “figueira do inferno”, colocando pachos de petróleo em rama ou tomando em jejum, alternadamente, chá de rama de alfarroba e de folhas de eucalipto (três folhas-mãe fervidas e 7,5 decilitros de água).

Também muito receitados são o chá de pele de cobra ou um invulgar preparado que a seguir se descreve: pela de cobra, agrião, cenoura, caracóis-granes, açúcar mascavado, tudo cozinhado em banho-maria e depois passado por um pano de linho ou algodão – tomado às colheres, três vezes ao dia.

Em Óbidos, mordisca-se um pedaço de pão, colocando-se seguidamente num buraco onde costuma meter-se um sardão, na esperança de que comendo-o ele, fique o bicho com a moléstia.

Comer gato guisado ou gato preto, ou trincar peixe no dia de S João são também formas tradicionais de curar a asma, sendo o último caso específico para o caso da asma nas crianças.

(*) Historiador e investigador

 

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