Coimbra  26 de Maio de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Por Paula Helena

Estado da nação… à saída de uma urgência de 24 horas

10 de Abril 2020

medicos

A propósito de o Ministério da Cultura admitir gastar um milhão de euros no TV Fest, agora, suspenso. A propósito do pagamento de 6,42 euros à hora aos enfermeiros em contratos de seis meses. A propósito do ‘chumbo’, pela Assembleia da República, de um projecto de resolução para atribuição de um subsídio de risco aos profissionais que se encontram na linha da frente ao combate da pandemia da covid-19.

Sou uma mulher das ciências, pragmática, e, como cirurgiã, muito prática e objectiva, e por isso mesmo com dificuldade em entender atitudes e orientações tidas no mundo dos deuses ou quiçá noutro planeta.

Atitudes como estas são reveladoras, na minha opinião, de uma total desfaçatez, falta de

respeito e indignas de um pais que se diz democrata.

É óbvio que toda a classe médica, enfermagem e auxiliares, bem como todo o pessoal

necessário ao bom funcionamento das instituições, estão revoltados!

A vossa sorte, Governo (do PS) e demais partidos, é que o que nos move não é o dinheiro, não é a glorificação, mas sim o doente!

Vocês não têm noção do que se passa nos hospitais, vocês não têm noção do que é ir

trabalhar sabendo que pode ser a última vez! Vocês não têm noção do que passamos com os equipamentos de protecção individual, vocês não têm noção do medo que temos para não nos aproximarmos dos colegas, para não lhes tocarmos, vocês não têm noção do que é saber que colocamos a família em risco!!! E isto passa-se mesmo não sendo em unidades para tratamento do novo coronavírus.

A minha filha de 18 anos quis ficar no colégio interno porque tem medo que eu a contagie, os meus filhos mais velhos estão em Lisboa, trancados, longe de mim. Quanto ao mais pequeno – que vive comigo –, nem nos cruzamos….

É a solidão…, é o risco de operar doentes infectados, é a dúvida se existe amanhã.

Eu não o quero para mim, mas para quem ganha 600 euros, 20 por cento é uma miséria por colocar a vida em risco! Não há vida que valha tão pouco e palavras post mortem que os glorifiquem.

Este processo coloca-nos sob uma tensão que parece que estivemos lá durante uma semana. Ninguém imagina e, talvez por isso, tenham dificuldade em nos compreender.

E depois… quando regressamos a casa… estamos sós…, sem o aconchego de um sorriso ou de uma palavra!

Sós… porque as pessoas têm medo de nós. Esta é a realidade!

Não é o dinheiro que nos consola, neste momento, mas atitudes que não nos façam sentir tão desprotegidos e tão substituíveis.

Quando há dinheiro para mais assessores e tordos… estou sem palavras para exprimir a

minha revolta na condução de todo este processo.

Desculpem o desabafo de quem esteve durante 24 horas a trabalhar e a ver passar cadáveres que não são contabilizados porque têm comorbilidades, que vão ser, essas sim, consideradas como causa de morte e não a covid-19…

Estou cansada de assistir ao que se passa na Assembleia da República, que ‘chumbou’, há dias, a divulgação de dados epidemiológicos do novo coronavírus para que os cientistas portugueses possam estudar a doença.

Estou cansada desta ‘engenharia’ de números morte por covid-19, estou cansada de sermos, hoje, idolatrados…, mas bem longe… e, amanhã, voltarmos a ser ignorados.

(*) Médica ortopedista

 

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