Coimbra  21 de Maio de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

A. Nuno Martins

Estação de Alta Velocidade: Coimbra Sul – Casais alternativa a Coimbra B – Loreto

5 de Abril 2024

A cidade de Coimbra enfrenta um momento decisivo com a proposta de uma nova estação para a Linha de Alta Velocidade (LAV), desenhada para ser mais do que um simples reforço na mobilidade interregional. O projecto, uma colaboração entre a IP-Infraestruturas de Portugal e o Município de Coimbra, promete transformações urbanísticas profundas, mas também suscita preocupações significativas entre residentes, instituições e ambientalistas, cujos protestos vem subindo de tom à medida que o projecto vai dando a conhecer-se.

No centro da controvérsia está o impacto ambiental e social da proposta de situar a estação da alta velocidade em Coimbra B – Loreto. Esta localização leva à construção de um ramal da alta velocidade que se estende de um ponto entre Soure e Taveiro até à Adémia, passando por Coimbra B, numa extensão de cerca de 16 km. Esta polémica empreitada obriga à demolição de mais de sessenta residências ao longo da actual Linha do Norte, afectadando severamente mais de uma centena de famílias. Enquanto algumas dessas famílias estão enraizadas na União de Freguesias de São Martinho do Bispo e Ribeira de Frades há gerações, outras ergueram suas belas vivendas nos últimos quinze anos, agora enfrentando a expropriação e ausência de opções de realojamento nas proximidades. Adicionalmente, a obra ameaça a monumental Canforeira de Bencanta, por pouco não sendo derrubada pela proximidade arrepiante da nova LAV, e os terrenos da Escola Agrária do Politécnico de Coimbra, cuja produção biológica ficaria comprometida.

Também alarmante é o potencial dano ao Choupal, o pulmão verde de Coimbra, espaço querido dos conimbricenses, e lar da maior colónia de milhafres da Península Ibérica. A construção deste ramal iria impactar duramente em áreas de lazer,  destruir ecossistemas vivos insubstituíveis, afetando inúmeras espécies e diminuindo drasticamente a biodiversidade local.

 

Solução sustentável e estratégica

 

Por outro lado, a alternativa Coimbra-Sul/Casais do Campo, evitando os encargos socio-ambientais e económicos da proposta original, apresenta-se como uma solução sustentável e estratégica. O plano alternativo ao do arquitecto catalão Joan Busquets (JB) inclui a requalificação da via rápida Bencanta-Taveiro, (VRBT), uma via sempre congestionada e poluída. A transformação da VRBT em um boulevard moderno com infraestruturas amigáveis, parqueamentos, passeios arborizados, passadeiras semaforizada e ciclovias, incorpora ainda o novo sistema de mobilidade de Coimbra, o metro-bus, que assim seria estendido para servir mais trinta mil pessoas, ligando Coimbra-Sul e Coimbra-B (ou a Baixa) em escassos minutos.

Acresce que a proposta de JB inclui a construção de um bairro de luxo, com torres de 14 andares com mais cinco níveis subterrâneos de garagem, uma ocupação que levanta sérias questões sobre a ocupação do leito de cheia do Mondego e áreas de reserva ecológica. Essa ocupação desmedida não só ameaça a biodiversidade local como ignora os riscos de inundações e movimentos de massa, exacerbando a vulnerabilidade da área a eventos climáticos extremos.

Em contrapartida, a solução Coimbra Sul, situada na exacta intersecção da LAV e LN, traz uma economia significativa, pois, implica apenas quatro demolições ao dispensar a duplicação da LN – uma obra avaliada em dezenas de milhões de euros. Além disso, posiciona Coimbra, que a rigor está fora, na Linha da Alta Velocidade.

A decisão sobre a localização da nova estação da LAV é portanto uma escolha entre o tremendo impacto imediato do conceito desenvolvimentista, especulativo e nesse sentido anacrónico, do plano actual, e os benefícios de longo prazo de um desenvolvimento urbano que respeita as pessoas, o ambiente, o património natural e cultural, e promove a inclusão social. A preferência pela solução Coimbra-Sul marcaria Coimbra como um exemplo de mobilidade urbana sustentável , de coesão social e visão de futuro.

(*) Arquitecto e Professor Universitário, residente em Coimbra