Coimbra  5 de Março de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Joana Gil

Esta vida são dois dias

2 de Fevereiro 2024

O Carnaval está quase aí. As festividades desta altura do ano estão, na nossa cultura, alicerçadas na ideia de que há que folgar antes do início da Quaresma, tempo por excelência de introspecção, ascetismo e contenção. De igual modo, em muitos outros locais do mundo, as tradições carnavalescas estão entrelaçadas com a religião cristã, mas congregando também muitos elementos da cultura pagã.

O Carnaval em Portugal tem tradição e alguns pontos bem marcantes. Os famosíssimos Caretos de Podence são património imaterial da Humanidade, mas se descermos no mapa encontramos o Julgamento e a Morte do Galo que se assinalam na Guarda, com uma forte dimensão popular que ajuda a preservar o património cultural regional. O Entrudo tem também por tradição desfiles, desde logo os escolares mas também muitos outros pelo país fora, não faltando folia nos Carnavais de Loulé, de Ovar ou de Torres Vedras e um pouco em todo o lado.

Na Bélgica, o Carnaval é uma brincadeira levada muito a sério. Em especial, as festas que assinalam o Carnaval na pequena cidade de Binche são, tal como os portugueses Caretos de Podence, património imaterial da Humanidade. Este ano, assinalam-se os 20 anos do reconhecimento pela UNESCO da relevância deste evento, que se destaca de entre os muitos “carnavais” da Bélgica, os melhores dos quais situados na região da Valónia. O ponto alto das celebrações de Binche tem lugar na Terça-Feira Gorda, com o desfile dos “Gilles”, que são homens vestidos todos com o mesmo fato aveludado em tons de vermelho e dourado, uma máscara de cera que lhes dá a todos a mesma aparência enigmática e imperscrutável com óculos e bigodinho, todos calçando tamancos. Ao longo da Terça-Feira de Carnaval os Gilles dançam e afugentam os maus espíritos com paus. A multidão que todos os anos engole a cidade vai sendo presenteada com laranjas atiradas pelos divertidos Gilles – uma prenda porventura inesperada para quem não conhece a tradição, mas que é considerada portadora de boa sorte. E se os Gilles que animam as celebrações podem ascender aos 1.000, já os visitantes rondam o meio milhão. Um número impressionante que ilustra bem o relevo desta grande festa tradicional, com raízes no século XIV.

Coimbra não tem uma tradição marcante no Carnaval. Porém, isso não significa a indiferença face a essa data. Em Portugal o Carnaval está conotado com disfarces e partidas, mais ou menos maldosas, que “ninguém leva a mal”. Este ano, o sítio da internet do Turismo do Centro informa-nos de que na Baixa de Coimbra terá lugar o desfile do “Bloco do Beco”, em que o “carnaval brasileiro pede passagem”. De facto, falar de Carnaval sem falar do Brasil seria deixar o discurso incompleto: afinal, a cor, a música, a alegria explosiva e contagiante do Carnaval brasileiro são inigualáveis. Se é bom ver trazer para o nosso país o ritmo, a alegria, o brilho animado da tradição brasileira, é inegável que o nosso clima não combina com roupas de samba. Fazer um desfile de inspiração brasileira nas cidades portuguesas corre o risco de se assemelhar a um bolo vistoso mas sem açúçar, por lhe faltar algo – desde logo o calor exuberante do Brasil em Fevereiro. Mas mesmo que não saibamos sambar, ao menos podemos aprender com os nossos irmãos do lado de lá do Atlântico que Carnaval é uma festa que pode e deve ser vivida com alegria. Afinal, se esta vida são dois dias, o Carnaval são três! Com a vantagem de que ninguém leva nada a mal.