Coimbra  4 de Março de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Cândido Ferreira

Enquanto os “sonhadores” morrem…

29 de Janeiro 2021

– Perdoem-me esta “falha”, mas à terceira foi de vez. Resolvi hoje despir o traje garrido do humor com que enfrento a actual pandemia e vestir luto. Uma decisão dolorosa, num momento em que milhares de portugueses perdem a vida e só coragem e energia se recomendam…

Diz o nosso povo que, uma vez médico, se é médico para sempre. Ainda o covid-19 mal se aventurava por “mares nunca dantes navegados” e já eu, médico que “arrumara a bata” um ano antes, avolumava preocupações clínicas. E, vítima de uma quase obsessão, em breve me embrenhava pela parca informação disponível e procurava trocar ideias com colegas.

Foi assim que, muito cedo, pude traçar uma vasta “história clínica da pandemia” de que não retiro uma vírgula: certeiro no diagnóstico, nas estratégias de prevenção e tratamento e até nos prognósticos, cedo ditei que desta vez é mesmo a sério e que o SNS se deve preparar para a maior batalha das nossas vidas.

Para depois, perante a multiplicação de graves erros, desvios e omissões que observava em todo o mundo, e a todos os níveis, não hesitar em subscrever variadíssimos recados e denúncias, profusamente publicados.

Tendo “decretado” o uso obrigatório de máscara, uma munição que, na altura, só se encontrava fora do mercado, por essas e outras “barbaridades” me “estendi” perante entidades mudas, uma Ordem dos Médicos que respondia com agradecimentos protocolares e um Sindicato Independente que me ignorava.

Assim passei semanas, até de 19 de Março, quando a OM entendeu convocar um conselho técnico pluridisciplinar que arrasou os responsáveis nacionais e a comunicação social respondeu com o silenciar das vozes lúcidas e deu posse oficial a meninos reguilas, que fazem precisamente o contrário do que os pais recomendam.

Nos dias seguintes, com o Presidente da República a regressar a Belém, ainda o Primeiro-Ministro, sem planos de contingência desenhados, aparecia na TV em visita a uma “Unidade Covid”, sem quaisquer precauções e rodeado de dezenas de emplastros. Contra o coronavírus marchar, até a Assembleia da República reiterava tão “belos exemplos” ao comemorar o 25 de Abril.

Cansado de pregar no deserto, foi então que desisti de “produzir ciência” e, percebendo que estava a insistir no pior dos erros, que é ter razão antes do tempo, optei pelo sarcasmo e pela ironia.

O tempo passou e só quem anda mesmo a dormir – ou for insensível – não entende uma evidência que até fura os olhos: com 3 mil novos casos diários de covid, o nosso SNS entra no “amarelo”, deixando de corresponder a várias patologias; aos 5 mil, é óbvio que dispara o “laranja”, o que ainda obriga a maiores restrições. E foi já perante este cenário que, pelo Natal, se apagaram os semáforos para se cair no “vermelho”. E assim, irresponsavelmente, Portugal saltou do meio da tabela e hoje é o país mais atingido em todo o mundo. Uma realidade que só foi possível porque, preterida a ciência, e com eleições à porta, venceu o “superior interesse” de uma classe política tão arrogante como oportunista e ignorante.

Três vultos da cultura

Perante este drama, e tal como os demais portugueses, também eu fiquei limitado a lutos diferentes dos habituais, impedido de prestar a derradeira homenagem a alguns “sonhadores” que marcaram a minha vida e que, entretanto, faleceram. Tendo crescido em Coimbra, irei hoje evocar três grandes nomes da cultura portuguesa, com quem aí privei:

– O lisboeta Artur Portela Filho que, ameaçado na capital e em outras cidades, aqui encontrou asilo para o seu jornal durante o “Verão Quente” e participou num colóquio organizado pelo PS, no Inatel, com Carlos Candal e Paulo Quintela. Num estreitar de relações pessoais, foi uma honra ter sido convidado como o mais jovem colaborador da revista “Opção”, que ele então congeminava.

– Eduardo Lourenço, um “coimbrão” a quem nunca a cidade de Vence convenceu, e que também aqui buscou agasalho moral e intelectual, marcado pela presença assídua, com a família, na sede do “nosso” PS.

– E, finalmente, Telo de Morais, médico e filantropo falecido há dias, que embora menos conhecido é também merecedor de profundo reconhecimento. Homem de rara cultura e sensibilidade artística, e tendo doado à cidade de Coimbra um vasto espólio, hoje exposto no Museu Chiado, que emoções me proporcionou o seu saudoso sorriso quando, este verão, o visitei em sua casa? Com que prazer o ouvi então puxar de recentes poemas da sua autoria, área em que se revelou brilhante? E como ainda recordo a mágoa que li na sua face já muito gasta, quando aludiu a uma colecção de duzentos e sessenta quadros de pintores modernistas portugueses, que a preço simbólico havia destinado à Câmara de Coimbra e se encontram sabe-se lá como? Uma colecção tão única, quanto honesta…

À minha frente, e esta é mesmo a triste realidade que a minha vista alcança, espalham-se os quarenta quilómetros de desolação a que hoje está reduzido o Pinhal de Dom Dinis. Dinheiro não falta, ao que apregoam, mas até a pequena pérola que é a mata de São Pedro, e que foi resgatada com heroísmo, continua à mercê de inconscientes.

Não é fácil sonhar, neste dia em que Portugal bate recordes mundiais de incompetência e as atenções se dispersam por candidaturas presidenciais que, hábeis em papaguear “opiniães” sobre qualquer matéria, não apresentam um único projeto consequente para mudar o nosso país. Não é fácil no dia em que um prestigiado cientista vem declarar que os anticorpos contra os primitivos coronavírus não actuam em novas variantes que, entretanto, se espalham…

No entanto, a vida tem mesmo de ser tocada para a frente e, cumprido este “dia de luto”, há que acreditar no futuro.

Um futuro muito difícil sem que, antes, se encontre a fórmula que permita replantar o Pinhal de Leiria.

(*) Cidadão e ex-candidato à Presidência da República