Coimbra  21 de Agosto de 2019 | Director: Lino Vinhal

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João Pinho

Encontro uniu história, literatura, medicina e afectos, em Tábua

27 de Abril 2018

A biblioteca pública municipal João Brandão, de Tábua, recebeu no passado dia 20, pelas 21h30, o encontro de escritores tabuenses contando com as seguintes participações: Cátia Fernandes, Ricardo Mota, Fernando Pais e António Nunes, cabendo a moderação a José Fanha. Uma bela forma de assinalar o mês de Abril e as efemérides a ele associadas: mês do livro e dos direitos de autor.

O evento contou com a participação de 100 pessoas, tendo sido apresentado pela dr.ª Paula Neves, actual directora da biblioteca, cumpridas que foram – e a nosso ver de forma exemplar – as suas funções na qualidade de vice-presidente da edilidade tabuense.

O primeiro momento da noite – provavelmente o mais significativo de todos – foi a leitura pelos alunos da EB1 de Midões do livro infantil «O dia em que a mata ardeu», da autoria de José Fanha. Uma obra publicada há 11 anos, mas que ganhou, fruto da tragédia florestal recente, uma dimensão renovada. Cerca de 20 crianças deram corpo e alma a uma representação que cativou os presentes pela força da mensagem e empenhamento dos alunos. Para cada um dos meninos e meninas envolvidos, o momento terá sido a catarse possível em face de um drama que continua muito presente no dia-a-dia.

Seguiu-se o encontro dos escritores convidados, que transportam em si e de diversas formas e conteúdos, o ADN do município tabuense. Ao nível da História, Fernando Pais, autor de várias obras, centrou o discurso na questão da 1ª Guerra Mundial, tema do seu último livro no qual elencou fichas biográficas dos 290 tabuenses envolvidos no conflito, realçando as condições difíceis dos nossos soldados. O outro historiador convidado, António Nunes, também autor de estudos locais, recordou o seu trajecto pessoal e profissional – de mecânico de automóveis a investigador, historiador e professor – revelando especiais conhecimentos sobre o território tabuense em contexto medieval.

A abordagem às questões mais literárias coube ao escritor Ricardo Mota, consagrada figura nas nossas letras, vencedor em 2015 do prémio revelação Agustina Bessa Luís com a obra «Fredo» e que na sessão revelou aos presentes parte dos seus novos projectos literários.

Por fim, usou da palavra Cátia Fernandes, jovem enfermeira do Hospital Pediátrico de Coimbra, também com raízes tabuenses e autora da obra «Qualidade de Vida da Criança com Doença Renal». Confessou-se com o «coração cheio» – sentimento partilhado por todos os presentes – enaltecendo a coragem das crianças doentes e a necessidade de dar visibilidade à doença renal.

A última intervenção coube ao presidente da Câmara Municipal de Tábua, Mário Loureiro, que sublinhou a «importância da qualidade da noite cultural vivida». Nós que assistimos a tudo com redobrada atenção vamos, inclusivamente, um pouco mais longe. Partindo da frase de Fernando Pais em que assinalou «Tábua foi sempre uma terra pobre», entendemos enaltecer a riqueza de espírito dos seus escritores e decisores políticos e culturais, capazes de superar dificuldades de vária ordem promovendo, estimulando e divulgando o adn histórico das suas comunidades através de bem conseguidas edições.

Oxalá este caminho se mantenha e a cultura não resvale, como tem acontecido noutras municipalidades, em vias de sentido único onde se gastam rios de dinheiro em coisas efémeras das quais nada fica ou frutifica para as gerações futuras.

Em ambiente alegre e descontraído, a noite findaria com os convivas a deliciarem-se com queijadinhas de Pereira e Tentúgal temperadas por original chá das terras tabuenses.

(*) Historiador e investigador

 

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