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João Pinho

Encarnação e José M. Silva: Soco no estômago, ou incentivo que faltava?

14 de Junho 2017

Causou alguma estupefacção, na cidade e região, o apoio manifestado publicamente por Carlos Encarnação a José Manuel Silva, líder do “Somos Coimbra”, que parte para as próximas eleições autárquicas encabeçando uma lista dita de independentes. Ninguém imaginaria, à partida, que uma figura durante décadas conotada politicamente com o PSD, onde tem sido tão preponderante e ao serviço do qual desempenhou várias funções, fosse capaz de ir tão longe. Mas foi!

Para alguns, foi um acto de traição ao partido, para outros questões mal resolvidas com o actual candidato pelo PSD, outros defendem que se tratou dum ajuste de contas ao nível das opções políticas locais, concelhias e distritais – de presente e de futuro -, enquanto os mais puritanos entendem que o ex-edil somente exerceu um direito que lhe assistia enquanto cidadão.

Creio, porém, que esta manifestação de apoio ultrapassa o simples carácter desinteressado e despretensioso, típico de alguém que ascendendo a “senador” deseja disfrutar da reforma da vida política, decidindo apenas pela amizade e consideração mútua. Visão idílica que muitos lhe querem conferir, mas que não cabe nem no texto nem no contexto.

Carlos Encarnação, convém não esquecer, foi a grande figura política de Coimbra da última década, liderando o Município durante dois mandatos e um ano (2002-2010), saindo em condições estranhas e atípicas para dar lugar a Barbosa de Melo. Foi um vencedor, que deixou obra e caminho fértil para outros lhe sucederem de forma tranquila.

Quando li a notícia pela primeira vez fiquei incrédulo e não pude deixar de reflectir. Como foi possível que uma figura desta dimensão tomasse uma opção tão contra-natura, esquecendo-se dos milhares de apoiantes e simpatizantes do Partido Social Democrata que em si votaram, que carregaram bandeiras e andaram pelas ruas da cidade e das freguesias mobilizando, colando cartazes e distribuindo folhetos, incentivando-o a si e aos seus candidados, especialmente, nos maus momentos, reunindo apoios, promovendo acções de campanha? O “general” era bom, sem dúvida, mas a “tropa” foi o garante da sua sustentabilidade, de combate em combate até à vitória final – e disso sou testemunha, pelo menos em certas parcelas do munícipio onde assisti a esses gloriosos dias.

Tanta gente, a maioria no anonimato, que deram a cara por um homem e por um projecto que julgavam de causas ficaram de repente incrédulas e revoltadas. Que se teria passado com aquele por quem deram o peito às balas, combatendo lado a lado no sempre complexo e desgastante mundo da campanha política em pleno Verão? E que pensam da sua atitude, em especial, os presidentes e autarcas de freguesia que com ele trabalharam, alguns dos quais nutriam sentida estima política e pessoal, mas que agora se retraiem ao ouvir o seu nome?

É assim a vida e a política, definida pelo momento e pela antecipação de futuros mais ou menos de risco. Encarnação, ao apoiar José Manuel Silva, transporta para o mundo real, o título do seu livro «o poder é solúvel», apetecendo acrescentar agora o subtítulo «as pessoas também». Duma coisa ficamos já certos: o movimento independentista granjeou um apoio de peso, ao mesmo tempo que terá acentuado, ideologicamente, uma linha de direita, meio onde se tem vindo a movimentar com certo à vontade, alimentado por dissidentes e insatisfeitos das antigas fileiras de Encarnação, mas também de Manuel Oliveira.

Aguardemos pelos desenlaces dos próximos tempos, que entre agitação e revelação nos hão-de esclarecer sobre o desconhecido:

Ficará Encarnação apenas pelo papel de mais um no movimento de independentes, ou revelar-se-à como motor e principal responsável? Fica-se pelo papel de solista ou assume o de maestro?

Conseguirá o PSD superar este murro no estômago, fazendo do gesto o incentivo que faltava para unir as suas tropas, cumprindo-se, assim, uma velha máxima, segundo a qual tudo o que é atacado tende a unir-se e a responder em bloco?

Aguardemos pelas respostas. Serenamente.

(*) Historiador e investigador