Coimbra  13 de Maio de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Eleições, todos perderam… mas vamos vencer!

26 de Janeiro 2021

As eleições democráticas, com o voto livre do povo, são a aura do regime político e definem quem dirige a sociedade organizada, quem determina a aplicação e sustentabilidade dos direitos humanos, quem orienta a vida das pessoas integradas na família e na sociedade.

Por isso, votar é um dever, pelo que eu não poderia deixar de o fazer, com os riscos inerentes, pois continuo a valorizar o ato que consubstancia a liberdade de expressão do pensamento, que não conseguiram sonegar-me em tempos de ditadura, com as consequências que hoje a poucos importa.

E como tornei público, votei à esquerda, por ser o meu perfil de consolidação de ideário e luta, por manter a minha credibilidade nos princípios, causas e valores sociais, e porque (sem desconsideração por outras posturas ou crenças) nunca serei submisso, catavento, hipócrita, bajulador ou dependente de qualquer opção de conveniência.

Dizem que são onze contra onze e, no fim, ganha a Alemanha. É minha opinião que, tendo ganho a democracia (e a saúde, depois veremos), todos perderam. Os candidatos e o povo.

Marcelo Rebelo de Sousa, ao ser eleito pelo bloco central (que englobou direita e esquerda, dogmas de estabilidade e interesses de coexistência pacífica, prestidigitadores do conceito socialista e arrivistas de beneplácitos à direita), na realidade hipotecou o próximo mandato de eventual consenso direita / esquerda, passando a sua inclinação ideológica natural a começar a perturbar e dificultar a governação socialista ou, a contrario sensu, a governação “esquecer” a sua matriz e aproximar-se do “renovado” Presidente da direita democrática.

Assim, ganhando massivamente nas urnas, Marcelo perdeu margem de manobra em magistratura de influência, prevendo-se a conflitualidade institucional pós-eleições autárquicas. Ainda vai haver a radicalização do PSD para conquista de eleitorado (que perdeu para a extrema-direita), e a suspeita de redefinição de identidade e protagonismo no PS (entre dinossauros e neófitos) devido às estratégias mal conseguidas e com lideranças em suspensão. A crescente agressividade da direita radical, trauliteira, xenófoba e populista, continuará manipuladora de nova geração que substitui a geração de Abril que vai perdendo influência e vida.

Ana Gomes, no seu honroso segundo lugar e baixa percentagem, perdeu por não ter o apoio da “nomenklatura” do PS (de facto, não seria a representante mais indicada, mas as cúpulas não quiseram apresentar uma opção consistente e credível) e pelo seu perfil não agregador (quer do conclave socialista, quer pelos anticorpos que gerou nos militantes devido a posições anti-justiça e demagogia desbragada em futebolês). Sendo apoiada pela corrente de esquerda socialista no PS, esta saiu enfraquecida (afinal Marcelo foi primeiro), perdendo-se ou adiando-se alguma capacidade de inovação (não só geracional), modificadora do establishment que controla e distribui os poderes. E nem tudo vai bem no reino da Dinamarca, quando o candidato “oficial” do PS é da direita democrática, com um pé para a instabilidade intriguista e uma mão para a coligação das forças da direita que fazem acordos com ultras, “caso se tornem moderados” (!?).

André Ventura perdeu, porque não conseguiu o segundo lugar que “prometeu” na sua veia de papagaio falante, porque não teve uma verdadeira ideia política de resolução dos problemas do País mas apenas o debitar de slogans anti-humanos e anti-sociais como verdadeiro homem das cavernas ressuscitado, porque mobilizou essencilamente os ressabiados de Abril, os descontentes com os agentes políticos tradicionais e os desiludidos com os valores face ao compadrio instalado que gera aproveitamento indevido e corrupção sem distinção de “cores”. E 11% da votação que obteve não representa o povo português, que se identifica com a liberdade, a democracia e os valores sociais, embora facilite o tráfico de influências para forçar o nacionalismo a atingir o poder, perante o PSD fragilizado e desconsiderado pela população (vide sondagens) e o CDS em vias de extinção (idem).

João Ferreira perdeu, persistindo na aliança do idealismo com o irrealismo, quando podia ser uma lufada de ar fresco, se abandonasse o discurso que cansou os veteranos e desmotivou as novas gerações. A sua baixa votação no Alentejo, a par do crescendo ultra-direitista, tem um significado sociológico que nos deveria fazer corar, como democratas, reformistas e socialistas. A sua candidatura perdeu, porque não fixou o eleitorado da CDU, nem contribuiu para uma frente de esquerda que pudesse dialogar e talvez aliar, com base na solidariedade e direitos humanos.

Marisa Matias perdeu, como se vê pela quebra eleitoral marcada, apesar do seu mérito qualitativo, mas com campanha apagada e o sectarismo não esquecido do voto do BE contra o Orçamento de Estado, desperdiçando um potencial de influência política à esquerda, mas que não se esgota na força que representa, e que age com sobranceria e presunção, “pureza ideológica” que não tem e propriedade da verdade.

Tiago Mayan perdeu, restando-lhe a expressão do individualismo e liberalismo como direita caviar e futuro apêndice de coligação de direita total, à míngua de poder.

Vitorino Silva faz parte da democraticidade do sistema, tem esse mérito, mas obviamente tem votação residual.

Em eleições, segundo os protagonistas, todos ganham e ninguém perde. Na verdade, segundo a nossa opinião, se todos perderam, o povo também perdeu. Mas, terminadas as eleições, resta-nos… o mais importante. Vencer a batalha pela saúde. Vamos acreditar!

(*) Médico e eleito do PS na AM de Coimbra