Coimbra  2 de Junho de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

José Belo

Eleições autárquicas: andar ou não à babugem

6 de Março 2020

Vêm aí as eleições autárquicas. Parece que falta muito tempo, mas elas estão já ao virar da esquina. E cada partido envolvido, seguramente, que já começou a fazer contas à vida, ou está com elas na primeira linha da agenda política.

O PSD não fugiu à regra, devendo, julgo, estar já a preparar os respectivos “atalhos” de percurso, como, para mim, ressalta do comunicado da Concelhia local, ao dar a conhecer as “ linhas verdes” da sua estratégia autárquica assumidas em Assembleia Concelhia.

Nele proclama-se uma candidatura aberta à sociedade de Coimbra, assente num novo modelo de diálogo e concertação com os cidadãos eleitores, empresas, instituições sociais e o governo local. Poucos, pela sua vaguidez, deixariam de a subscrever, até porque está reforçada com a intenção de afirmar um novo modelo de diálogo e múltipla concertação estratégica com os munícipes.

Trata-se de uma proclamação. Mas vamos ao terreno, ao essencial.

Acredito que esta fase é politicamente oportuna e positiva para qualquer reflexão, dado que o PSD está mais pacificado e ao nível do seu habitual aliado – o CDS – existe uma fragilidade real, que pode facilitar e justificar a extensão de eventuais parcerias, que parecem possíveis, a outros horizontes políticos, em Coimbra.

Sejamos verdadeiros, porém, na análise que se irá fazer. Trata-se apenas de um exercício, sem qualquer dado objectivo a suportá-lo e até um pouco desalinhado, pensarão alguns, com o que veio a lume. Só e só “ficção” política!

E nela faz-se uma leitura aberta desse comunicado, percepcionando-se na alusão a “uma candidatura própria e autónoma”, apenas uma “generosa” e actual declaração de vontade, numa determinada fase do calendário eleitoral, a poder ter, contudo, uma interpretação evolutiva e dinâmica lá mais para diante.

Aliás, dentro do mesmo contexto, cabe um CDS, como se foi dizendo, que não exibe, em Coimbra, uma saúde autárquica exuberante e do qual não se tem tido notícias em termos de impactante actividade política, neste particular. Temos pena, mas é assim…

Daí que o PSD, para poder dar expressão concretizadora à necessidade pragmática de criar pontes, nas suas redondezas, que possam engordar a sua ambição autárquica, não parecer ter outra saída, que não passe pelo movimento “Somos Coimbra”, liderado pelo Dr. José Manuel Silva.

A ninguém, aliás, tem escapado a sua acção penetrante, quer política quer social, a regar, no quotidiano, as relações de proximidade com os eleitores, que tão decisivas são neste tipo de eleições, onde o PS, pela mão de Carlos Cidade, tem sido exemplar a colher frutos. É que nelas, cada um dos que votam ou não votam conhece, geralmente, o “outro”, com as suas “misérias e grandezas”, as suas presenças e ausências, a sua verticalidade e a sua tibieza.

Daí que a acontecer uma aproximação do PSD ao Somos Coimbra, ela trará uma grande questão à colação: quem irá liderar essa Coligação? Será que José Manuel Silva vai dar de barato todo capital, que tem sabido armazenar ao longo do seu, até agora, bem sucedido mandato, como vereador da CM de Coimbra, cedendo a liderança ao PSD?

Será que vai ignorar e/ou desvalorizar alguns erros de percurso deste partido, como aconteceu na gestão do caso da votação do Orçamento, com a sua independente vereadora Paula Pego, onde parece não se ter sabido agir a montante, subvertendo-se o bom senso e por isso se perderam cartas num baralho já de si tão curto?

Há um exercício fácil de fazer: coloquemo-nos no lugar do experiente Dr. José Manuel Silva a negociar, com o PSD, a composição conjunta da eventual lista às próximas eleições autárquicas. Seguramente, que se tal acontecer, irá falar com o “peito cheio”, por sentir que o PSD será o principal interessado na definição de uma estratégia comum nessas próximas eleições.

E isto, porque também sente que há uma dinâmica ascensional do “Somos Coimbra”, ao contrário do PSD, que se secundarizou com o aludido caso da vereadora e não tem sido tão assertivo, quanto se reclama, na gestão dos dossiês, que passam pela 8 de Maio nas reuniões de Câmara, onde se sente a falta de alguma liderança!

Chegados aqui, não é difícil antecipar o cenário mais provável, que é o de se ver o líder do “Somos Coimbra” a reclamar, para si, a cabeça-de-lista de uma eventual Coligação com o PSD. E isto porque sentirá e pensará, que ele e o seu Movimento, poderão ser a única bengala para, nestas circunstâncias, o PSD poder aspirar a ver vazadas, num Programa Eleitoral eventualmente ganhador, ideias sociais-democratas, estruturantes.

Porém, a acontecer, tudo isto escapará à ordem natural das coisas, já que o PSD não deveria alijar as suas ambições e responsabilidades autárquicas criadas por anos e anos de liderança.

Contudo, dirão alguns, trata-se de pragmatismo, já que o PSD, no estado, menos eufórico, em que concelhiamente está, sem culpa desta nova Direcção, claro, não terá muitas alternativas senão estender a passadeira a quem lhe parecer, que o pode levar a partilhar a liderança da Câmara e se pressentir que, sem essa cedência, não haverá Coligação.

Não deve ser, todavia, “pera doce” o momento para a nova Concelhia do PSD. Este Partido tem nomes prestigiados (alguns) com grande notoriedade pessoal, profissional e política, com obra feita, para irem a jogo; tem também gente ambiciosa, em bicos de pés, mas sem grande impacto e densidade; e se houver um braço de ferro com o “Somos Coimbra”, há também independentes para levar a “água ao moinho”, como, entre outros, poderá acontecer com a prestigiada Prof.ª da nossa Universidade, Margarida Mano.

Mas seja qual for o cabeça-de-lista a vestir a camisola da campanha, ele tem que saber sair de casa, andar pelas ruas, ir ao café, à praça, às freguesias e a todos os eventos, tristes ou alegres, que nas mesmas aconteçam. Estar e agir em acções de proximidade constantes, falando e ouvindo, dialogando e não distanciando, modelando vontades e não extremando” razões únicas”.

E acredito que o segredo de uma produtiva coabitação com militantes e independentes, resulta de boas agendas, boas causas e boas razões para elas, envolvendo e agregando, pois só assim se sensibilizam vontades e respectivas opções de voto.

Há “matéria prima”, num tempo de alto risco para o PSD. Que haja inspiração estratégica para pensar e decidir bem… Vamos esperar para ver!

(*) Ex-vereador do PSD na CM de Coimbra