Coimbra  26 de Janeiro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Lino Vinhal

Editorial: Natal, a ser que o fosse inteiro

25 de Dezembro 2019

Aí está o Natal, essa realidade mítica que nesta altura do ano nos faz eternamente meninos.

Seja qual for o ângulo por que o queiramos analisar, ele transporta-nos sempre para um tempo de maior tolerância, mais partilha, mais alegria, soltando os afectos que calamos dentro de nós o ano inteiro e que neste período se expandem e buscam afectos alheios. Por isso, ou também por isso, nos sentimos melhores nesta altura e nos entregamos aos outros com mais amizade e carinho. Pena é que o Natal, nesta sua dimensão consumista, não exija a si próprio ser igual para toda a gente.

O Natal não é justo. Dá mais a uns do que a outros. Dá coisas boas a uns e não dá a todos. O Natal, este Natal materialista que cultivamos, deixa atrás de si um rasto de desigualdade que magoa.

Seja-nos por isso permitido chamar à mente aquele alguém sofrido com quem todos nós deveríamos partilhar o nosso Natal que, quando modesto, tem sempre lugar para mais um. Esse alguém que olhamos vezes sem conta mas que não vemos para além dos trapos que veste e que desaconchegamos com a nossa indiferença.

O sorriso, aquele sorriso rasgado pela esmola recebida, é o nosso melhor Natal. Que, se ideal, gostaríamos de imaginar à beira do mar, com maresia e flor de acácia, com a eloquência de uma tempestade tropical e a serenidade de um pôr de sol no Índico. Esse alguém imaginado é o melhor Natal de muitos de nós! … o nosso pião, a nossa bola de farrapos, o nosso triciclo sem rodas.

Para que não menos justo se torne o Natal, lembremos nesta altura quem de pouco faz a consoada com pataniscas de nada. Um feliz Natal a ele, a eles, esvoacem por onde os leve o vento. E obrigado por despertarem o Natal inteiro que há em nós.

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com