Coimbra  20 de Setembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

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Lino Vinhal

Editorial: Levanta-te, Coimbra, e diz-lhes obrigado

24 de Maio 2019

Sejamos realistas e saibamos ler a história mesmo que venha envolta em roupagens de futuro. Mas a Académica, a nossa Académica, a Académica de Coimbra, essa está a fechar um ciclo e vai acabar. Ganhe quem ganhar as eleições, leve um ano ou meia dúzia deles, o que vem aí será uma nova realidade. Também digna, com certeza. Também mobilizadora de entusiasmos, seguramente. Mas outra Académica. Há realidades que são irrepetíveis e aquela Académica, aquela mão cheia de orgulho coimbrão, não encaixa numa estrutura organizativa e empresarial com as características de uma Sociedade Anónima Desportiva (SAD) para que se caminha, inevitavelmente. Muito resistiu ela. Tudo fez para manter a sua matriz. Mas atrás de tempo, tempo vem e não há como fazer parar a história. Pena que assim seja e assim tenha de ser, todos teremos. Mas não há volta a dar-lhe. Que venham os amanhãs.

Permitam-me todavia que apele a Coimbra e aos apaixonadas desta velha Académica que não deixem apagar a história. Nem a memória. E que sintam orgulho no que esta instituição foi ao longo de tantos anos. Que saibam contar aos filhos e netos o quanto essa Académica encheu de orgulho o peito de milhões de portugueses. Que lhes contem os FRA,s de alegria de multidões imensas. As muitas lágrimas caídas, nem todas nem sempre de alegria. Falem-lhes do empenho de gerações sucessivas que tanto enobreceram a cidade, o país, a Academia, o desporto. Dentro do campo e fora dele. Lá, lá no relvado, com os Malós, os Campos, Gervásios, Wilsons, Rochas, Melos, Manuéis Antónios, Tonis e tantos outros. Cá fora, com os Anjinhos, os Mendes Silvas, Faustos Correia, Castanheira Neves, o Coroa, Ramos de Carvalho, Diamantino Lopes, Aurélio Lopes , mais, mais, muitos mais que em horas decisivas fizeram tudo e fizeram tanto para que a Académica resistisse e continuasse. Verdade: alguns destes e muitos outros tiraram pão da sua própria boca para que a Académica não morresse à míngua. Mas tudo isto pelo futebol? Sim, mas não só. A Académica, essa Académica não era apenas um clube de futebol. Essa Académica tinha uma matriz única, não era uma simples equipa de futebol, era uma escola e era sobretudo um orgulho de terra, um orgulho de Coimbra, um orgulho pátrio. Mais do que isso: essa Académica era uma causa e uma paixão. E tantos houve, tantos, que morreram abraçados a ela.

Saibamos, Coimbra, saibamos – a Coimbra daqui e aquela outra espalhada pelo país fora e pelo mundo além – saibamos dizer obrigado a essa gente, tanta e a toda ela. Saibamos agradecer-lhes o legado extraordinário e perene que está a ser depositado nas gerações seguintes e no Museu das nossas emoções. Que saiba, Coimbra, estar à altura deste momento e deste obrigado que tanto a tantos deves. Levanta-te, Coimbra, e honra o teu nome, o teu passado e a tua história que doravante falará de uma estrutura desportiva que era diferente de todas as demais, que tinha uma alma única, que fez feliz tanta gente, mesmo e sobretudo tantos que por ela sofreram.

Pela nossa parte, Campeão das Províncias e demais meios associados, obrigado Académica, obrigado gente, jogadores, dirigentes, patrocinadores, apoiantes, sócios, claques. Um obrigado do tamanho do mundo.

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