Coimbra  8 de Maio de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Lino Vinhal

Editorial: “Campeão das Províncias” em tempo de aniversário

22 de Abril 2021

O “Campeão das Províncias” assinala com a presente edição os seus 21 anos de publicação em Coimbra. Nascido em inícios da década de 50 do séc. XIX em Aveiro, em plena Regeneração e pela mão de um grupo onde pontificava José Estevão, o Campeão perdurou até 1924, terminando aí uma longa série de 72 anos de publicação. Assim se manteve durante muitos anos, exactamente até 1998, quando iniciou a segunda série no âmbito do ISCIA, Instituto que ministrava bons cursos de Jornalismo em Aveiro, transferindo-se logo de seguida para Coimbra, onde os seus mentores – connosco, equipa actual – julgaram justificar-se a existência de uma publicação com perfil editorial mais interventivo.

Coimbra tinha então, e tem hoje, a nossos olhos, dois bons jornais diários regionais e alguns semanários. A matriz de um diário difere da de um semanário. Nem melhor nem pior, apenas diferente. Com o “Campeão” essa diferença acentuou-se e logo no primeiro número este Jornal disse ao que vinha e porque vinha. Podendo dispor então da ajuda de alguns jornalistas experimentados, de uma estrutura empresarial pequena mas eficaz, achou que podia fazer jus às suas características de origem, dispondo-se a pensar em voz alta, com exigência e rigor, os interesses de Coimbra e da região. E fazê-lo em plena liberdade. Com elegância, é certo, mas sem a preocupação de proteger interesses próprios, ou alheios, que não tem, para além da preocupação e do gosto que temos em fazer, edição a edição, um trabalho que mereça o respeito dos leitores, de braço dado com a credibilidade que tentamos emprestar-lhe, letra a letra. Se assim fizermos, e tentamos fazê-lo, sabemos que ganharemos a confiança dos leitores e do mercado. E temos vindo a consegui-lo.

Reconhecê-lo não é abuso de entendimento em causa própria. É um imperativo, partilhando com o mundo que nos rodeia a promessa de que aqui, desta tribuna, não serviremos interesses escondidos ou calados e outro móbil não nos motiva que não seja fazer o melhor jornalismo de que formos capazes. Merecem esse esforço os três ou quatro jornalistas de exigência que por aqui passaram e deram ao “Campeão” um aport de qualidade e ambição que lhe acrescentou valor. Por razões do destino (João Bravo), por circunstâncias da vida e suas condicionantes (Rui Avelar e, mais recentemente, Diana Baptista), esses jornalistas deram novo rumo às suas vidas. Claro que fizeram falta. Muita. Obviamente. Mas o saber que aqui deixaram, o exemplo de trabalho e de dedicação que aqui cultivaram, foram semente que dará fruto, assim as condições de cada dia o permitam. A eles, os atrás enumerados, e a outros que à sua maneira foram também “campeões” no seu tempo, deixamos aqui o reconhecimento do seu trabalho e o gosto que tivemos no percurso comum desta viagem.

Tempo de eleições

Vêm aí eleições autárquicas dentro de meses que acontecem num momento único da vida partidária de Coimbra. Desde Abril de 74 até agora, a liderança em Coimbra tem sido disputada entre PSD e PS, com melhor aceitação, nem sempre repetida, dos ideais socialistas. Este ano, o PSD ressentiu-se de um certo afrouxamento que se nota em si por todo o país. As últimas temporadas não lhe foram particularmente felizes, nem em Coimbra nem em muitos outros lados, e isso abriu a estrada para que o PS, aproveitando a disponibilidade e o voluntarismo de Manuel Machado, fosse poder longo e duradoiro em Coimbra, expondo-o a uma crítica que se repete sempre que alguém está bastante tempo no poder. Manuel Machado tem vinte e tal anos de Câmara Municipal. Aqui ganhou eleições, aqui perdeu. Deu o melhor de si e fez muita coisa. Mas mesmo dando o melhor de si, há sempre muita coisa que se não fez e o não feito é sempre, em qualquer tempo, latitude ou circunstância, imensamente mais do que aquilo que se fez. E quem estiver no poder será sempre muito mais criticado por aquilo que não fez, do que aplaudido pelo que fez. Acontecerá amanhã a mesma coisa com outra força política qualquer e com outra figura diferente. As coisas são mesmo assim e esperamos que a alternância que faz da democracia um sistema credível, venha um dia dar oportunidade a que outras forças políticas e outros candidatos façam o muito que de certeza sabem fazer, que acrescentem a Coimbra, ao concelho e à região, o muito que lhe falta e que, mais ou menos a tempo, é imperioso que se faça.

Coimbra não é uma terra qualquer. Não é tão boa como muitos a julgaram durante anos e anos, nem tão má como outros a olham do alto do seu criticismo exacerbado, resultante da sua necessidade de dizer mal para que se tornem notados. Dizer mal é um direito que deve ser exercido quando fundamentado. Mas é também um escudo que protege os incapazes. Os críticos sérios apontam mas sugerem soluções. E isso nota-se pouco em Coimbra.

O PSD, ele próprio nas suas vestes de grande partido político de Portugal, deve pensar se este é o caminho que quer fazer e precisa fazer. Com convicção dizemos que não é dobrando os joelhos que se chega mais alto. Mas também admitimos que à vezes é preciso ir à caça, mesmo sem cão perdigueiro. Que esse PSD, o de ontem e o de muitos anos, volte logo que possa. E poderá quando tiver coragem de mandar às urtigas esses interessezinhos de grupo e de esplanada que falam muito mas não dizem nada. Coimbra e o país precisam desse PSD. Precisam de um PS que se não acostume em demasia a fazer a sesta à sombra do poder. Precisam de outras forças que, à sua dimensão eleitoral, acrescentem valor, mérito e honra ao sistema democrático português. E para que isso aconteça não é preciso que sejam partidos liderantes. Também em política, vale muito mais ser sério, honrado e trabalhador, do que simpático e fala – barato.

Obrigado aos nossos leitores. A todos, críticos incluídos. Aos agentes económicos. Às diversas entidades e instituições cujo trabalho muito respeitamos e que têm reconhecido o rigor do nosso trabalho e a exigência ética que emprestamos às nossas posições.