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Hernâni Caniço

É Natal?

24 de Dezembro 2023

É Natal, mas não parece.

Natal é época de concórdia e complacência perante os distúrbios da realidade, são promessas de novos caminhos de conciliação, estima, amizade e amor, é troca de prendas e por vezes de afectos, é repouso no lar para quem tem lar, é reflexão sobre erros e costumes quando não é presunção e água benta, é motivação para novos desafios por vezes com golpes baixos.

É Natal, porque o humanismo ressurge das trevas, o consenso ganha fôlego, as virtudes fazem esquecer as máculas, a liberdade subjuga o preconceito, a felicidade é etérea, a família ganha asas, o estado social existe.

Não parece Natal, porque os sem abrigo aumentam, há que comer todos os dias, viver é preciso, as mortes evitáveis sobrepõem-se às palavras, há doenças negligenciadas, há reféns nos túneis, há crianças cuja prenda de Natal será não morrer, livrando-se de bombas em catadupa, enquanto famílias são destruídas, como se a família não tivesse valor.

Mas estamos no Natal…

O Natal, além de proximidade e encontro, é também época de formulação de votos, pelo que já desejei Bom Natal a todas e a todos, na sessão de Câmara Municipal em Coimbra em 30 de Outubro. Estranham? É que estava quase a iniciar-se a abertura solene da iluminação de Natal pelo executivo, que terá 2 meses de luz feérica, consumo sem poupança, cintilação de ilusão e desilusão, pelo que achei ser oportuno (O Natal é em Dezembro?).

Natal é quando, na vida pública e nos feitores de tudo saber e suas certezas, se perde a presunção de ser o maior e se recolhe à humildade do cidadão comum, eivado de pretextos para agitação e propaganda.

O Natal é, para muitos, família e trabalho, sem notícias de jornal, sem bajulice, sem maledicência. Eu farei a minha parte, e estarei a trabalhar, como médico, no sector social.

O Natal é caridade, fica bem dar alimentos aos pobrezinhos (os portugueses têm de aprender a viver mais pobres, não podem comer bife todos os dias, e os desempregados não podem passar o tempo no Facebook), quando o Natal deveria ser promoção dos direitos humanos, como apela António Guterres, secretário geral da ONU (de imediato alguém pede a sua demissão!) e ídolos sem pés de barro praticam pelo Mundo global.

O Natal é todos os dias, mas será em Dezembro, mês em que a Câmara de Coimbra estará a pagar em reembolso os cadernos de exercícios das crianças, pagos pelos pais, em Setembro.

O Natal é o sentido de missão (para quem sabe o significado da palavra missão), pelo bem público, em combate à desigualdade, sem apologia do liberalismo.

E é também a época em que todos falam de paz (incluindo pessoas de bem, santinhos de pau carunchoso e ditadores), enquanto se massacram crianças e populações civis no Médio Oriente e na Ucrânia, pelos senhores da guerra, e o Mundo olha para o lado, apesar das palavras de circunstância.

Afinal, uns são mais iguais do que outros, é lá longe e à distância. Dizia Manuel Alegre, “Com mãos se faz a paz se faz a guerra. Com mãos tudo se faz e se desfaz”.

É Natal, mas não parece. O descontentamento, a gula pelo dinheiro, a hipocrisia insidiosa, a perversão de valores, o engrinaldar da sociedade, o filme de terror que não é filme.

Mas é Natal, aproveitemos a vida, sejamos úteis, pratiquemos o bem. Bom Natal! Perdido o pai, primeiro Natal sem mãe, há felicidade com as novas gerações e a sua alegria, o seu contentamento, o nosso abraço.

(*) Médico