Coimbra  17 de Maio de 2022 | Director: Lino Vinhal

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João Silva

E agora Académica/OAF?! O que nunca esperei escrever

29 de Abril 2022

Levar um velho sócio da Académica a escrever sobre este seu amor, num momento de sofrimento, não é coisa agradável. Mas, é nestes momentos, em que apetece afrontar os deuses, que talvez mereça a pena uma reflexão, ainda que controversa e contestável, de alguém que enquanto cidadão há muitos anos se fez sócio da Académica, e que decidiu, como legado familiar, fazer sócios todos os elementos da família, no caso dos netos no dia do nascimento.

O primeiro encontro com a Académica aconteceu já lá vão mais de 50 anos, numa primeira passagem por Coimbra, na juventude. Na altura a Académica fazia parte dos encantos de Coimbra e teve influência na paixão que a cidade me suscitou e que levou, a que alguns anos depois, aqui decidisse ficar a viver.

De então até hoje o mundo mudou, o futebol mudou e a Académica mudou muito. Já lá vão quase quetro décadas que acresentou aos nome: Organismo Autónomo de Futebol (OAF) e isso não é despiciendo. Representou uma alteração significativa na sua natureza institucional e no seu modelo organizativo, o que implicou uma mudança na ligação à academia e na relação com a cidade.

Esta transformação, que não foi apenas cosmética mas estrutural, manteve sempre uma deterrminada ambiguidade e, por muitos debates que tenha originado, as divisões entre associados e simpatizantes mantiveram-se e são, em certa medida, uma das causas das maleitas que levaram ao presente tombo desportivo.

Quando se lamenta o facto das suas dificuldades não suscitarem um sobressalto na cidade é bom lembrar que estamos perante décadas de confusa gestão – com direções “recrutadas” num grupo de amigos e construidas com base em equilíbrios político-partidários -, que teve o ponto alto no triste episódio de mistura entre o futebol e a política, consubstanciado na nomeação de um presidente como diretor municipal do urbanismo da Câmara que levou, não só a graves consequências financeiras para a instituição, mas também colocou em crise valores éticos e fundacionais da originária Académica, aquela cuja bandeira a academia e também a cidade empunhavam.

Por outro lado, décadas de indefinição de um modelo desportivo, com contratações de jogadores, num rodízio anual, de várias nacionalidade e distintas escolas de futebol, dando a ideia de que o plantel era constituído por empresários, com objectivos de rápida inserção no futebol nacional e consequente rentabilização contratual, e não por um estrutura técnica competente e informada por valores e conceitos desportivos académicos, levou a uma degradação da imagem desportiva e institucional e ao afastamento de muitos “académicos”, que no país e no mundo se identificavam com o “futebol à Académica”.

No actual mundo do futebol, em que circulam rios de dinheiro e se entende o futebol com uma “indústria” que exige profissionalismo a todos os níveis. Se queremos ter uma equipa de futebol competente e competitiva, integrada nessa dita indústria, temos de ter consciência que isso só será possível com uma visão empresarial e com uma solução organizacional consequente, bem como métodos e critérios de gestão adequados aos tempos que correm, incorporando, obviamente, valores éticos a nível institucional e estéticos no campo desportivo.

Não vejo que, neste momento, seja possível pensar de outra maneira. A Académica/OAF, contrariamente ao que por vezes se diz, tem uma imagem (marca) valiosa e infraestruturas (hardware) capazes e adequadas à sua permanência na divisão principal do nosso futebol, faltando-lhe modelo de gestão/negócio, planeamento e organização (software).

Também importa ter em atenção que as novas gerações – que não viram a Académica do tempo do futebol romântico e em que se assumia como clube da academia e um relevante e especial elevador social -, esperam ter um clube com uma equipa de futebol forte, ganhadora e capaz de proporcionar bons espetáculos desportivos. A não ser assim afastam-se e a equipa perde parte do músculo essencial ao triunfo desportivo. Por seu lado a cidade foge porque não quer ser identificada com uma equipa perdedora, e o clube deixa de ter capacidade de aliciamento de “colaborações” empresariais que, obviamente, só estarão disponíveis para apoiar projetos de mérito e sucesso.

Estamos perante um choque que exige racionalidade e visão realista a bem da sobrevivência de uma instituição com uma história extraordinária e que só sobreviverá se for capaz de se adaptar a novos tempos: 1 – em termos de organização e funcionamento; 2 – com uma aposta desportiva com consistente modelo de jogo, dos mais jovens aos seniores; 3 – e aposta na formação de atletas/futebolistas/homens com valores que são permanentes, e inerentes aos seus estatutos e história.

Neste momento, em que é notória a desorientação por uma descida traumática na escala do futebol nacional, subsiste o temor que tudo continue como dantes e que não haja a capacidade de um rutura salvadora que consiga a sobrevivência e a regeneração da nossa Académica/OAF.

O risco de colapso institucional é real, devendo ter-se em atenção que, como alguém ensinou, as instituições morrem quando os de cima não sabem e os debaixo não querem.

Este é um texto que nunca gostaria de ter escrito!

(*) Sócio da Académica/OAF