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Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

Dor, a do Rui Avelar

31 de Dezembro 2018

Soube, ainda ontem, ao final do dia, que o pai do nosso Rui, o Avelar de sobrenome, faleceu.
Foi o próprio, numa linha de amizade que nos une, que me transmitiu a infausta notícia.
O elo mais pujante e forte da cadeia familiar – as mães, por vezes, representam, por força da vida e das circunstâncias, os dois papéis, num gesto que sabemos bem quanto custa, em sacrifícios e em responsabilidades – finou-se.
Sabia que o Rui – e ele que me desculpe esta inconfidência (não traz mal para ninguém, nem tão pouco para ele e nem para o Mundo) – e durante um largo tempo, numa atitude sublime e altruísta de filho, cuidou do pai, no leito da cama, onde se encontrava acamado.
Andava extenuado e percebia-lhe, uma ou outra vez que estive com ele, que as forças, as que repartia entre a função de jornalista – exigente, sem horas, com incompreensões, a moer os fígados de que tem de lidar com personalidades irascíveis que se dizem representantes dos cidadãos e a solicitar alguma diplomacia – e as de cuidador… se estavam a desvanecer.
Aguentou, estoicamente e com um amor de filho que quero enaltecer, com a sua presença, sempre que pode, em tempo, junto do pai, à beira da cabeceira. Mas, e também, para lavar, para dar de comer e para afagar o rosto de quem o soube educar e orientar para vida, na sua humildade de pai.
O Rui, numa das vezes que passei pelo “Campeão das Províncias”, e pressentindo-o cansado e prostrado de tanta corrida, para não deixar o trabalho a meio e para não abandonar o pai, que precisava dos seus bons ofícios e da sua presença amiga, não quis deixar de me dizer (ele que me perdoe esta confidencia, mas é amiga):”olha Tó, ando desfeito com o trabalho que tenho e com o ter de cuidar do meu pai”.
Mas não foi um lamento, apenas repartir a vida e o que ela, aqui e ali, nos dá de sacrifícios e de preocupações.
Disse-lhe, para o reconfortar, que sabia bem o que estaria a passar, porque, recordei-lhe, que, e sempre que consegui, tentei tratar da minha mãe que sofreu de Alzheimer, uns 12 anos.
O Rui, já para uma recta, e mesmo final, entendendo que o seu esforço lhe poderia acarretar consequências graves para a continuidade da sua prestação profissional, colocou o pai num lar, onde lhe podiam dispensar outros cuidados e terminar os seus dias com a dignidade que o filho queria. Fizeste o que um filho bom deve e tem de fazer, em caso de doença, pelo seu pai. Foste exemplar. Deixas lição. E deixas um exemplo nobre de sentimentos e de humanidade pura. Tenho orgulho em ser teu amigo…
Esta dor, a da morte, numa representação de uma viagem para a eternidade, já tinha vindo a ser preparada pelo Rui, apesar de nunca – ninguém – estar consciente desta separação.
Já enderecei ao Rui umas palavras de conforto. Disse-lhe, e numa máxima de Santo Agostinho, perante a morte do pai: “NÃO CHORES SE ME AMAS…”.
Recorda-o e vai orando por ele.
Paz para a alma de teu pai.
Um abraço solidário nesta hora de dor e de saudade.

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