Coimbra  25 de Novembro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Carlos Costa Almeida

Dois Hospitais são dois Hospitais

2 de Julho 2020

Vamos repetir mais uma vez como se as pessoas ainda não soubessem: a Região Centro necessita de dois Hospitais Gerais Centrais. Com dois milhões e duzentos e trinta mil utentes necessita de dois Hospitais Gerais Centrais. Centralizados em Coimbra, como os do Norte estão centralizados no Porto e os do Sul em Lisboa. Porque Coimbra tem todas as condições para lhes dar uso e os aproveitar, em termos das muitas instituições de ensino, de formação profissional, de investigação científica ligadas à Saúde que tem e, naturalmente, de doentes que a eles acorrem ou lhes são enviados.

E dois Hospitais são dois Hospitais, cada um com todas as valências necessárias para o ser, isto é, para tratar os seus doentes. Em termos de especialidades médicas e cirúrgicas, recursos humanos e tecnologia. Os doentes têm de ser estudados e tratados em cada um como um todo que são.

E Coimbra, com o CHUC, tem apenas um Hospital. Onde foram concentrados profissionais e doentes e que, nessas condições, já mostrou não poder sozinho dar resposta adequada. Por isso recorre sistematicamente a contentores, a listas de espera enviadas para fora e ao outro Hospital na outra margem, que era o segundo Hospital em Coimbra e agora é o que permite que o outro vá sendo o único…

Esta situação de insuficiência hospitalar do SNS na cidade já não se pode esconder, e os defensores da fusão começam a ter de falar da “reactivação” dos Covões, até agora a caminho dum encerramento planeado que, finalmente, verificaram não ser possível sem a indignação dos utentes, para além da dos profissionais. Mas põem a reserva de os dois Hospitais não poderem ter os mesmos Serviços, ou “Serviços em espelho”… Quer dizer, na verdade continuam a não querer dois Hospitais!

Porque é em cada Serviço de especialidade hospitalar que os doentes são tratados das suas diferentes patologias, integradamente uns com os outros dentro do mesmo hospital. Não é razoável e minimamente eficaz ter um Serviço num hospital e outro noutro hospital, e o doente andar dum lado para o outro, sem os médicos respectivos se encontrarem sequer à sua cabeceira, discutindo o seu caso! Mas neste país há de tudo… e parece que é isto o que agora alguns querem para Coimbra também!

Cada Serviço hospitalar tem de ter uma organização interna gerível, e por isso terá de ter um tamanho que o permita. Serviços com muitas dezenas de camas são totalmente ingeríveis.

E é nos Serviços que é feita a formação médica pós-graduada, de especialização. Cada Serviço tem a sua capacidade específica para isso, que tem a ver com o número de camas e de doentes que trata, para além do número de especialistas que lá trabalham e o que cada um faz, nas condições que o Serviço tem. É evidente que dois Serviços conseguirão formar mais especialistas do que apenas um, este sempre limitado pela estrutura do hospital em que está inserido. Um único Serviço de especialidade numa cidade constitui uma limitação à formação de especialistas, de que o país necessita, muitos dos quais poderão querer permanecer no hospital e na cidade, enriquecendo esta do ponto de vista da Saúde, e não só.

Um Serviço de especialidade único na cidade constitui uma limitação na escolha por parte dos doentes. E nele se afunilam todos os doentes dessa especialidade, em listas de espera enviadas para fora, e resolvidas fora, do hospital, para além de se impedirem os doentes de exercerem nessa cidade o seu direito a ter uma segunda opinião.

Por último, mas com certeza não em último, a Universidade de Coimbra não pode ignorar este problema. Os alunos de Medicina, que entram na Faculdade às quatro e cinco centenas cada ano, e está previsto que aumentem no ano que vem, necessitam de ter hospitais onde possam ter aulas práticas e fazer estágios. O HUC não é suficiente, e até há pouco os alunos iam também para o Hospital dos Covões. Com o seu quase encerramento, para onde irão?… Numa cidade universitária fecha-se um hospital público central para os alunos terem de ir passar um tempo em clínicas privadas, como já foi estabelecido por convénio recentemente??! E quanto aos alunos da Escola de Enfermagem? Farão os seus estágios onde?… Também no privado?…

Algo de estranho acontece em Coimbra. Onde havia dois Hospitais Gerais Centrais, que eram necessários, e querem que não haja. Porque dois Hospitais são dois Hospitais. Não outra coisa qualquer.

Médico cirurgião e Professor Universitário