Coimbra  22 de Agosto de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

Discordo do presidente do IPC

20 de Junho 2018

Com o maior respeito, até por não o conhecer pessoalmente, mas sabendo-o nado em Coimbra e, pós tenra idade, ter ido para Angola, donde regressou depois do tempo em desvario da pré-independência, permita-me sr. presidente do Instituto Politécnico de Coimbra, discordar do que verteu aqui nas páginas do Jornal.

Diz explicitamente: “Coimbra tem dormido à sombra da fama”.

Compreendo que não pretende afirmar essa ideia a respeito da cidade que o viu nascer, antes perante uma ou outra instituição, serviço, empresa pública ou privada e cidadãos que ora cumprem missão em departamentos do Estado ou em órgãos representativos das nossas gentes locais, mais propriamente de Coimbra e do seu termo, logo do concelho.

E discordo por simples razões.

Primeiro: se Coimbra adormeceu sob a tal sombra da fama é porque os que a representaram num ou noutro caminho oficial, empresarial, académico, laboral, social, investigativo, artístico, literário, científico e ademais que haja não tiveram a ousadia, o engenho e a arte de a fazer vingar, resplandecer e de a fazer robusta para enfrentar o tempo do final do século passado e de este novo, o XXI, que é o nosso.

Segundo: Coimbra não adormeceu. Coimbra teve gente, da nossa, porque sou de Coimbra também, que se deixou ultrapassar pelo tempo e se esqueceu de acordar, porque embalada…em canções ou baladas estudantis. Passou pelas brasas…

Coimbra, como sabe, não pode desligar-se do pretérito honroso, glorioso, histórico, de tradições e de um espectro de grande valor aos mais diversos níveis, de que se destaca uma Universidade secular e com pergaminhos de cultura, de pedagogia e de certificação, na ordem modelar de ensino e de instrução.

Coimbra soube ou melhor a sua Universidade, também como pode entender, a partir de dada altura, dar a volta ao tempo, descendo ao povoado, buscando as realidades e misturando-se com as necessidades e os factos que o pós-Revolução de Abril, lhe carregaram para cima da Torre e sobre as escadas de cada Faculdade.

Coimbra, entretanto, com esse advento da democracia, demorou a reposicionar-se como catedral do Ensino e da Cultura, tão repentinamente como outras cidades o fizeram, porque começou a ter nos seus pontos de decisão gente de fora, compatriotas que não tiveram berço aqui e que não conheciam a história, a honra, o desígnio e as tradições de uma Academia e de uma Universidade que era reconhecida além fronteiras. Lisboa começou, quer se queira quer não, a ser mais capital, mais egocêntrica e mais poderosa…

A Medicina, com o seu pólo da Saúde, é um centro de consagrado mérito internacional, onde pontificam nomes, de ontem e de hoje, que, e lá fora, por onde tenho andado, são médicos de reputado valor profissional e científico. A Faculdade de Letras, a de Direito e a das Ciências, esta última com cursos da nossa modernidade actual, também ficam sublinhadas no seu saber e conhecimento por esses quatro cantos.

É evidente que as Universidades mais jovens e os Institutos Politécnicos, onde o sr. acaba de ser eleito, no de Coimbra, são centros de estudos com outros adornos, porque mais próximos da prática e das tecnologias mais em nota neste nosso tempo de tecnologias ligadas à computação, à robótica, aos ciberespaços e a engenharias que moldam a vida deste primeiro quartel do séc. XXI.

Mas Coimbra só se deixará adormecer se, e por ventura, tivermos gente da nossa gente que em vez de a acordar para a vida, de a recolocar no tempo, de a fazer à vida, de a abanar para os desafios, de a despertar para os projectos que a podem reaproximar do modo, de a requalificar para os planos e de a exorcizar para que se possam afastar dela os maus presságios e os fantasmas que lhe podem dar maus espíritos, a continuarem a embalar. A política tem de ser mais desenvolta e menos burocrática, deixando de ser castradora de cérebros/trabalhadores que não lhes moldam o passo.

Sabe, caro dr. Jorge Conde: acredito, e piamente, que se, e por um lado, a nossa excelsa rainha Santa Isabel continuará a zelar por Coimbra e por nós; por outro, que serão cidadãos como o sr., ora investido numa grata e exigente quão profícua missão, a manifestar que se deve ser criativo e audaz, podendo e devendo fazer de Coimbra uma cidade acordada para hoje e para o futuro.

Não quero sombra… quero que a fama, com gente boa e nossa, conimbricenses do coração e nunca coimbrinhas, deixem Coimbra soltar-se, fazer-se à vida, aos caminhos, à modernidade e a todos os desafios que a possam revigorar e dar qualidade de vida a quantos nela habitam.

Vou ficar na expectativa de perceber a colaboração, para tanto, do seu IPC. Ficarei, como todos os demais conimbricenses, agradecidos.

 

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com