Coimbra  6 de Dezembro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Américo Baptista dos Santos

Dia do Antigo Estudante de Coimbra: Ponto de vista para proposta de unidade (XXII)

5 de Novembro 2021

Antes de dar a palavra a Emídio Guerreiro – 1990/1991, gostaria de chamar a atenção para dois aspectos que me parecem relevantes. O primeiro da enumeração de episódios académicos (tantas tomadas das bastilhas); o segundo da submissão de todos a esse outro supremo da Tomada da Bastilha. Guerreiro fala-nos como a elegância e o desprendimento de quem não quer sobrepor ou reescrever a história, o que não é, de todo, despiciendo. Diz ele: “A propósito do centenário da Tomada da Bastilha, exemplo maior da irreverência e da afirmação Académica e 30 anos decorridos sobre o meu mandato na AAC, pedem-me para partilhar uma memória. Entre muitos momentos de agitação estudantil que tive, como as greves dos departamentos de Química, Engenharia Civil, Engenharia Electrónica, a marcha para Lisboa, o Fecho da porta férrea contra os “turbo-professores” de Direito, a rejeição do modelo de financiamento do desporto ou a enorme manifestação silenciosa no dia da Universidade de 1991, escolho o do “rapto da caixa registadora” das Cantinas em protesto pelo aumento dos preços dar refeições.

…, fomos matutando como reagir. Um protesto? Uma greve? Uma manifestação? E foi então que estando na AAC com João Granja, o João Luís Gonçalves e o Fernando Guerra, decidimos “roubar” a caixa registadora logo na abertura para o pequeno-almoço. Colocou-se o problema da reacção dos funcionários. Estes não iam gostar da ideia nem permitir que, sem violência física, o fizéssemos. E é então que pelas 6h da manhã decido telefonar ao Dr. Luzio Vaz para lhe comunicar o que iríamos fazer dentro de uma hora. A reacção foi: “sabes que horas são? Vai dormir que eu vou continuar a fazê-lo” e desligou o telefone. Perante esta resposta ficamos silenciosos uns segundos. “Isto vai correr mal, temos de ir acordar malta pois vai haver pancadaria com os funcionários, mas decidimos “vamos lá e seja o que Deus quiser!” E nisto toca o telefone. Era o Dr. Luzio Vaz “Vais fazer o quê? Roubar a caixa? Tu és doido Emídio?” Ao que retorqui “Tem de ser Dr., não aceitamos o aumento e queremos deixar isso bem claro! E vai acontecer a bem ou a mal… Se quiser evitar chatices avise os funcionários para não se oporem, mas garanto-lhe que a caixa vem comigo!” E lá fomos para as cantinas onde entre empurrões e ameaças fui pegando na caixa que eles não largavam até que veio um telefone do Dr. Luz a dizer aos funcionários para não haver zaragata e deixar ir a caixa. Nesse dia a cantina foi gratuita e a nossa acção de protesto divulgada pela imprensa… E recordo a sagacidade do Dr. Luzio Vaz que, percebendo a importância da afirmação da Académica relativamente às restantes academias, impediu uma cena de pancadaria que seria, ela própria, a notícia ao invés do protesto pelo aumento do preço das refeições.

Longe de ser uma Tomada da Bastilha, o “rapto da caixa registadora” é apenas mais um episódio, entre muitos, da história da irreverência da Academia de Coimbra.”

É por este remate final que louvamos a humildade de Emídio Guerreiro e a sua sabedoria na justa hierarquia das coisas.

(*) Ex-Presidente da AAEC