Coimbra  28 de Outubro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Américo Baptista dos Santos

Dia do Antigo Estudante de Coimbra: Ponto de vista para proposta de unidade (XVIII)

24 de Setembro 2021

A crónica de hoje já não é. É outra. Impressionou-me a mensagem de Tiago: “Onde há inveja e rivalidade, também há desordem e toda a espécie de más acções… a sabedoria… é pura, pacífica, compreensível, generosa, imparcial e sem hipocrisia… De onde vêm as guerras? De onde procedem os conflitos entre vós?”…

Tiago propõe como modelos Abraão, Job, Raab e Elias e mostra grande afinidade aos Livros Sapienciais e Proféticos, além de outros.

Tantos séculos depois, são me impostas outras citações. É a tua vez Ricardo Roque – 1984/1985 : “A Tomada da Bastilha esteve então sempre presente, não só no 25 de Novembro, quando proliferaram as iniciativas culturais e desportivas integradas na Recepção ao Caloiro e fizemos desfile dos archotes pela cidade (marcha silenciosa nocturna evocativa do acto ousado e rebelde que em 1920 tinha sido executado pelos estudantes para dignificar a Associação Académica), mas também no dia quando, enquanto representantes dos estudantes, lutámos pelos seus direitos e pela dignificação da AAC e da Academia de Coimbra.

Portanto, a “Bastilha”, a nossa e única, a que agora comemoramos o primeiro centenário da sua tomada, ainda que inspirada pela de 1789 continua sempre presente como ideal inspirador e materializado num código de conduta para quem assume os destinos da Associação Académica. Ontem, hoje e amanhã. Também para nós foi um guião na acção, reflexo de um tempo que não passa, neste passar de um tempo que não volta, como escreve o poeta.

E connosco, nesse ano de 1984, com a utopia como horizonte e com herança de gerações e gerações a darem-nos instrumentos para lidar com a realidade complexa e exigente, enfrentámos os desafios como se de Bastilhas se tratassem e que precisavam de ser conquistadas. Em democracia e em liberdade, e em nome de valores como a solidariedade e a igualdade, ADN da Academia Coimbrã, travámos as nossas lutas, pelos e com os estudantes de então mas também de nomes dos de gerações passadas pois o nosso património imaterial não estava, nunca esteve confinado a espaço ou tempo na sua dimensão universal…”.

Meu caro Ricardo Roque, tenho de te cortar a palavra para não ultrapassar os limites do meu espaço. Por aquilo que li e ouvi, não perdes pela demora.

Sei que da tua prosa de afirmar a “Bastilha”, a nossa e única, me vai sobrar mais uma inquietação, não no sentido de perturbação causada por incerteza ou apreensão mas mais de apoquentação, no preocupante sentido de incomodo de quem procura única e exclusivamente a verdade. Não como uma realidade absoluta mas como uma conformidade entre o pensamento ou a sua expressão e o objeto desse mesmo pensamento. Sei, sabemos todos, que a verdade no sentido de realidade, exatidão, rigor, precisão é qualquer coisa muito difícil de trazer aqui. Razão tem a verdade material filosófica, consistente na conformidade do pensamento ou da informação com um dado factual, material ou não. Mais atingível que a verdade primeira. Esta define-se como “proposição evidente mas indemonstrável, porque é necessária a toda a demonstração e que por consequência constitui de facto e de direito, a primeira certeza de que se parte para raciocinar.”

Todas estas citações têm autoria declarada anteriormente. De tão evidentes, sei que seria um insulto, aos nossos leitores, estar a repetir no final.

(*) Ex-Presidente da AAEC