Coimbra  28 de Julho de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Américo Baptista dos Santos

Dia do Antigo Estudante de Coimbra: Ponto de vista para proposta de unidade (X)

2 de Julho 2021

TOMADA DA BASTILHA (CONT.) Remontam à segunda metade do mês de Abril, do corrente ano, as primeiras críticas à nossa descrição sobre a Tomada da Bastilha. Tem de ser quebrado, agora, o nosso silêncio, pelo menos em parte, sobre elas, pela simples razão de que feito a um, feito a outros. Em abono da verdade, ainda não seria já, porque outras podem surgir e tudo de uma vez fica mais em conta. Também não será oportuno ser exaustivo, pois a publicação de um texto completo e único dá mais unidade e permite um melhor confronto de posições.

Do que recebemos, vemos, ouvimos e lemos, só enxergamos uma forma de evitar o caos: voltar ao nosso texto da não apresentação dos Lysíadas do Zé Veloso, no Instituto Universitário Justiça e Paz, no dia do antigo estudante de Coimbra, que também não se realizou. Retirando-lhe toda a carga camoniana de que estava viciada e apresentá-la com um espírito de concisão, onde se arrumem, em prateleiras apertadas, cada uma das dimensões apresentadas. Não como Homero, Virgílio ou Camões mas como o próprio Veloso, seguindo na sua descrição sobre a preparação e execução do golpe.

Diz ele: Desengane-se quem pensa que o golpe foi uma brincadeira de aventureiros estouvados. Muito pelo contrário, ele foi meticulosamente planeado e executado em todos os seus detalhes e, antes de o levar a cabo, os cabecilhas fizeram “o solene compromisso de não largar a causa mesmo com o sacrifício da própria vida”, como disse anos mais tarde o já médico Dr. Pompeu Cardoso, “para nós os rapazes desse tempo, era uma espécie de conquista da independência em que lutaríamos até à morte”. À cabeça do grupo estava um comité de cinco membros, em que o líder era Fernandes Martins e o número dois seria, por ventura, o Padre Evaristo Alves, ambos estudantes de Direito. Os outros três eram os estudantes de medicina Pompeu Cardoso, João Rocha e Augusto da Fonseca Júnior, conhecido por Passarinho, jogador de futebol da Académica e que tinha sido Presidente da Associação no ano anterior. É-nos apresentada uma fotografia onde em vez de cinco aparecem seis, reunidos à volta de um candeeiro de petróleo.

Aliciados e organizados segundo os processos das velhas associações secretas, que já vinham de longe na Academia – veja-se a Sociedade do Raio contra o Reitor Basílio -, os conjurados na base da pirâmide não se conheciam uns aos outros e eram poucos os que estavam dentro dos pormenores do plano.

Para os assaltos criaram-se três grupos. O primeiro, onde estavam o Padre Paulo, o Passarinho e o Pompeu Cardoso, aproveitou a noite chuvosa e fria para levar dissimuladamente uma escada até à porta de Minerva, porta que escalaram a caminho da Torre, onde haveriam de entrar com auxílio de uma chave falsa feita em segredo pelo serralheiro Alfredo Garoto, que se conta que a fez de graça, só de imaginar que se trataria de um golpe contra os talassas…

Os outros conjurados foram entrando na Associação ao final do dia e por lá se quedaram até à hora de fecho da sede, altura em que a porta exterior se fechou, mas ninguém saiu. A partir daí, estando o “cavalo de Troia” já lá dentro, havia que esperar em silêncio e de luzes apagadas, para não causar suspeitas no exterior e atuar pela madrugada.

Um grupo tomaria de assalto as instalações do Instituto, forçando a porta de passagem para o primeiro andar e colocaria a salvo, em local selado, os seus arquivos e demais pertences, já que o que estava em causa era tomar o espaço e não o recheio. Enquanto isso, os restantes conjurados acarretariam os parcos móveis da Associação para o andar de cima, consumando a ocupação, posto o que ficariam em guarda, qual tropa de choque, para defender as instalações de uma reação das forças policiais, que não chegou a existir, mas que se temia.

O rebentamento do morteiro e o resto das cenas já o contámos em partes anteriores. Bem como a sequência operacional que consistiu, aqui o recordamos em tomar o Instituto por dentro, arrombando apenas uma porta; manietar as forças de segurança enchendo as ruas de gente; e consolidar o terreno conquistado com telegramas e animação de rua.

Entre dois perigos, preferimos este da citação que é o menor dos riscos em comparação com o da imprecisão e o Zé, no seu paraíso alentejano, até gosta.

(*) Ex-Presidente da AAEC