Coimbra  24 de Outubro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Américo Baptista dos Santos

Dia do Antigo Estudante de Coimbra: Ponto de vista para proposta de unidade (III)

29 de Abril 2021

À terceira é de vez e chegou a dos factos. Que melhor historiador que o ilustre autor da extraordinária epopeia dos Lysíadas. Às 6h45 da matina, a Alta de Coimbra é acordada pelo estrondo de um morteiro! Para o grupo de conjurados que tomaram de assalto a Torre da Universidade, é o sinal que o Instituto de Coimbra – o odiado Clube dos Lentes – já foi tomado e de que há que trazer para a rua a Academia. Num ápice os sinos da Torre ensaiam um repicar de loucos, enquanto das varandas dos andares assaltados, por cima da velha Associação Académica, são lançadas girândolas de morteiros e os conjurados dão largas à sua alegria, alvoroçando a cidade.

Acodem todos à Rua Larga, no coração da velha Alta, guiados pelo estralejar do foguetório. O primeiro frémito é de sobressalto. Aí vem outra revolução! Naquela altura era o pão-nosso de cada dia… O segundo é já de regozijo. No mastro da Torre, uma capa desfraldada dá o sinal de quem comenda as operações. E ao longo do dia as janelas do antigo Colégio de São Paulo Eremita, agora todo ele já da Associação, haverão de engalanar-se de bandeiras, ali mesmo nas barbas do Governo Civil, com patrulha da guarda à frente e esquadra da polícia nas traseiras, sem que as autoridades pudessem ter mexido um dedo. Deus ajuda quem madruga…

A Academia volteava a ter instalações condignas, depois de três décadas em bolandas, metade do tempo que durara a ocupação filipina – despachada por 40 conjurados em 1640 -, já que a impaciência da juventude não permitiu esperar tanto tempo para correr com os seus opressores de hoje.

Mas os 40 conjurados de 1920 não param. Apesar de terem sido obrigados a antecipar o golpe – inicialmente previsto para o simbólico dia 1º de Dezembro – por receio de que a Reitoria estivesse a par das movimentações, eles sabem o que fazer a seguir. Há que comprometer as altas instâncias do poder com o sucesso do golpe. É preciso que a notícia chegue a Lisboa da forma conveniente… Reunida a Academia em Assembleia Magma, decidem enviar telegramas para o Presidente da Républica, Presidente do Conselho e Ministro da Instrução, a quem comunicam, com a maior das naturalidades, que já estão instalados na sua nove sede, não deixando, claro está, de manifestar ardentes votos de prosperidade para Portugal.

Perante tal desfaçatez e na completa ignorância do que se passava na longínqua Coimbra do Doutores, ninguém desconfia e a respostas de tão eminentes personalidades não se fazem esperar, agradecendo a deferência da notícia em primeira mão e felicitando a Academia por lhe ter sido outorgada tão antiga reivindicação. Bem podia o Reitor escrever um ofício a informar o Ministro no dia seguinte, aliás, em termos que quase desculpavam os estudantes!… Uma vez mais, eles tinham sido rápidos. Ganha que estava a peleja no campo da batalha – o reconhecimento de jure levaria mais alguns dias -, havia que celebrar, dar asas à alegria de ver realizada uma aspiração que muitas gerações de estudantes vinham reivindicando há décadas e aproveitar a oportunidade para mobilizar a velha Briosa para a causa da Associação, que à época tinha por sócios apenas uma minoria dos universitários. (Continua na próxima semana).

(*) Ex-Presidente da AAEC em Coimbra