Coimbra  14 de Outubro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

Deus guarde Agustina e a sua literatura

3 de Junho 2019

agustina-bessa-luis

Registo, com profunda mágoa e uma tristeza que me comove, o falecimento da grande senhora, escritora portuguesa, de um talento admirável, Agustina Bessa-Luís.

Foi minha directora. Guardo dela uns tempos de elevada cumplicidade. Agustina foi directora de “O Primeiro de Janeiro”, de 1986 a 87. Tinha uma sensibilidade muito própria. Era dotada de sentimentos pessoais que lhe emolduravam a postura, o discurso, e a forma de saber atender e de dialogar.

A sua sensibilidade de mulher culta e atenta à sociedade portuguesa e ao Mundo, mantendo uma presença amiga e que atracava cumplicidade, contagiou-me nesse tempo em que servi esse matutino do norte, na delegação de Coimbra, de 1980/89.

Passámos a visitar-nos. Quero recordar, como ela própria me contou que, e depois de se ter casado, passou a residir na rua dos Combatentes, em Coimbra. Aliás, e enquanto o marido tirou advocacia, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, esta preciosa escritora lusa, vinha à cidade das capas e dos estudantes bastas vezes, como me confidenciou. Um parêntesis, que deixa clara a personalidade e a simplicidade de Agustina: fez publicar um anúncio, e curioso no “PJ”, em que procurava pessoa culta com quem se queria corresponder. Acabou por ter escolhido o que viria a ser o seu marido, o dr. Alberto Luís.

Convidou-me, uma ou outra vez, para a visitar, no seu Gabinete de Directora de “O Primeiro de Janeiro”, na rua de S. Catarina. Foram momentos únicos, de uma empatia e de uma simpatia envolvente. Agustina, tinha uns editoriais rebuscados que exigiam releitura. Era o seu estilo. Era a sua maneira de escrever e de descrever. Mas eram lidos como quem saboreava a melhor francesinha do Porto… se esta analogia pode caber nesse bolso das letras.

Aprendi muito com ela. Ficámos próximos. Contava-me episódios da sua vida, em Coimbra, com o seu Alberto Luís. Veio umas duas vezes às instalações da delegação do seu jornal, em Coimbra, na Ferreira Borges, para revisitar a sala de exposições que – afirmava – “era uma sala de tertúlias de saber, de amizades e de caras conhecidas de uma Coimbra literária e de cultura”.

Que saudades desses tempos. Ela foi uma escritora que Portugal reconhece e de que se orgulha. Agustina Bessa-Luís impôs-se pela beleza dos seus traços humanos, pela sua força intelectual, pelo seu aprumo de escrita e pela sua grandeza de jornalista e de mulher das letras portuguesas. Para ela vai uma saudação muita amiga e fraterna nesta hora da sua despedida humana.

Que a alma de Agustina esvoace sobre nós e continue a pairar nas nossas cabeças para não deixarmos de prestar culto aos livros, à literatura e às letras portuguesas.

 

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