Coimbra  19 de Maio de 2022 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Sérgio Marques

Da coragem e da cobardia

19 de Março 2022

O Secretário-Geral da NATO, porta-voz da infame e cobarde hipocrisia do Ocidente – que louva o heroísmo da Ucrânia, de Zelensky e do seu povo, e os incentiva a continuar a resistir, a lutar e a morrer – SOZINHOS – contra a agressão cada vez mais brutal, selvagem e desumana de Putin – afirma que se a NATO intervisse (mesmo que apenas com o fornecimento de aviões para reforçar a frágil mas tenaz Força Aérea da bandeira bicolor), tal iria originar uma ‘escalada’ no sofrimento humano do Velho Continente, pois isso iria aborrecer o ‘bully’ mimado do Leste – viciado no jogo do ‘Olha p’ra mim, que belo Czar das Rússias vou ser quando for grande’ – que não pode ser contrariado pelos adultos, pois ameaça imediatamente com o arremesso dos seus mais destrutivos e tóxicos brinquedos.

Se Churchill fosse tão ‘realista’ (=cobarde), hoje falaríamos todos alemão (às horas do dia determinadas pelo ‘Reich’ para esse efeito, de acordo com a escala horária diária definida para cada categoria dos cidadãos do Império Alemão, arianos, híbridos e ‘untermenschen’), cumprimentar-nos-íamos uns aos outros com o bracito esticado e um entusiástico ‘Heil Mein Führer’, e cantaríamos alegremente o “Deutschkand Übber Alles” antes dos jogos de futebol da nossa adorada Selecção, a ‘Fußball Nationalmannschaften’, contra a Selecção Nacional Suíça ou contra a Selecção da República Boer da África do Sul.

Mas Churchill era, como a História documenta, um político irresponsável e aventureiro, daqueles suficientemente lunáticos e perigosamente ingénuos, que acreditavam que a democracia, a independência e a liberdade eram valores pelos quais valia a pena lutar, sofrer, fazer sacrifícios, e, eventualmente, vencer.

Que idiota! Tanta resistência, tanto atrevimento, tanta coragem desperdiçada, para que, afinal, a História do mundo livre desembocasse num século XXI liderado pelos iluminados líderes, ‘realistas e cautelosos’, que nos calharam em sorte: os que já nasceram com aquela doença congénita chamada pragmatismo, que se manifesta pela ausência de coluna vertebral e pela tendência para alternar entre duas posturas corporais perante os inimigos da Democracia e do Humanismo, qualquer delas reveladoras de uma inegável elegância, nobreza, integridade e compassividade – ora agora estão de cócoras, ora agora enfiam a cabeça na areia, na terra, na lama, o que estiver mais à mão. A águia americana, a francesa ou a alemã já mais parece uma galinha, e o leão britânico só ruge, não arranha – tornou-se no Boris, o gato amarelo e gordo, simpático e apalhaçado, um ‘party adict’, ‘bon vivant’, ao pé do qual até o Garfield é mais ousado…se estiver em causa uma fatia de ‘pizza’ ou uma fumegante ‘lasagna’!

Povo da Ucrânia, ‘Keep Kalm, Keep Strong, Keep the Good Fight’. Nós, os ocidentais – europeus, ‘yankees’ e ‘britons’ – continuaremos, firmes e determinados, a aplaudir a vossa bravura e estoicismo até ao fim… até ao vosso fim. ‘Shame on us’.