Coimbra  24 de Fevereiro de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Carlos Albuquerque

Crispação social e política

24 de Novembro 2023

Quando pensei no assunto sobre o qual iria escrever esta semana e de onde surgiu o título, ocorreu-me uma dúvida enorme na precedência entre social e política. Afinal teremos neste momento uma crispação social por influência da política ou o seu contrário?

Vivemos dias difíceis no nosso país, na Europa e no mundo. Com as guerras da Ucrânia vs Rússia e de Israel vs Palestina para além da instabilidade crescente das relações da China com os restantes países deste mundo global em que os Estados Unidos já não conseguem ser o polícia em quem a grande maioria confia.

Por cá e na sequência da última crónica, em que abordei o estado no SNS, gostaria de vos esclarecer que quando a escrevi, não tinha acontecido o terramoto político que se veio a verificar a partir do dia seguinte. Parecia premonitório mas foi apenas uma coincidência (in)feliz.

Chegados aqui e atendendo ao que se passou de seguida, este abalo político provocou a adstringência social que se sente no nosso contacto diário com as pessoas e instituições ou, por outro lado, foi a crispação nas várias áreas da sociedade que terá concorrido para a crescente desinteligência política que se tem verificado entre os vários actores do nosso sistema?

Todos assistimos nos últimos meses à convulsão nas várias áreas da sociedade: na educação com a longuíssima luta dos professores sem fim à vista; na saúde com todo o sector em “pé de guerra” diminuíndo claramente o “acesso à saúde” nos termos da Constituição; na justiça onde ninguém se revê, incluindo os magistrados que “gritam com falta de meios” e leis que têm de aplicar porque o Parlamento as concebeu sem o seu contributo, na maioria dos casos, e que torna o sistema injusto e obtuso; na habitação onde funciona “o sistema de lucros expectáveis” para os investidores em concorrência desleal com o “suposto sistema público de habitação”, que de repente tem muitas centenas de milhões de euros disponíveis para projectos e obras, mas esquece-se que tudo isso demora o seu tempo. Desde a ideia ao projecto, ao lançamento das obras, a sua execução e, finalmente, a disponibilização para o “mercado público”, decorrem sempre no mínimo 4/5 anos. Será este um tempo de espera expectável para quem tem a emergência social de alojar os que cá nasceram e todos aqueles que estão a escolher o nosso país para viver?

Temos um conjunto de muitos milhares de habitações degradadas, outras sem uso há muitos anos, fruto da saída de muitos portugueses para o estrangeiro e cujas gerações seguintes não têm interesse nestas casas para reabitar. Basta percorrer as estradas secundárias deste nosso país e deparamo-nos com todo este cenário que vos estou a tentar descrever. Os nossos políticos decisores só andam nas auto-estradas terrestres e aéreas… têm sempre muita pressa e não têm tempo para estas coisas mundanas. É pena, porque o nosso país é muito rico nesta e noutras oportunidades e eles não se conseguem aperceber disso. Talvez uma destas necessidades se configure com uma oportunidade de fazer mais e melhor. O ambiente urbano e rural agradece, em termos de desenvolvimento económico, a medida seria extraordinária, na perspectiva de requalificação urbanística, e podia também configurar uma magnífica oportunidade para os políticos que desejam ter medidas de efeito imediato, ou a muito curto prazo. Ganhávamos todos!

Nos últimos dias, com a decisão presidencial, na sequência de outra decisão no mínimo discutível do primeiro-ministro, de se demitir na sequência de um comunicado da Procuradoria-Geral da Républica, ficou o nosso país numa situação de grande dificuldade. Quando os potenciais investidores nacionais e estrangeiros olham para nós, numa perspectiva de curto ou médio prazo, é natural que fiquem apreensivos com o estado de agitação política e social. Esperemos que todos os que já decidiram investir não deixem de o fazer e que os que se preparavam para o efetuar não percam a confiança nas pessoas e nas instituições.

No meio desta turbulência, assistimos a tentativas de condicionamento da forma como sentimos e perspectivamos o futuro imediato. Entre alterações de liderança e alinhamento de posicionamento, vivemos os nossos dias com a sensação de que a classe política pensa que quem gritar mais alto vai-se fazer ouvir melhor. Será que é assim? Eu penso que não. Numa sociedade e democracia madura como a nossa, já não há lugar para este expediente. Estou absolutamente convencido de que o povo ouvirá sempre melhor quem comunicar no tom certo e com as melhores propostas. Com os decibéis correctos.

Resta mais uma vez enaltecer o papel dos autarcas, que perante mais esta convulsão, asseguram naquilo que são as suas competências, o regular funcionamento das instituições e mantêm o país no rumo certo, equilibrando os sectores sociais, financeiros e económicos. É em circunstâncias como estas, que o prestígio das autarquias, dos autarcas, dos seus dirigentes e trabalhadores se revelam determinantes para que a confiança dos portugueses e dos investidores se mantenham em níveis confiança elevados, de forma que no novo ciclo que se aproxima, após as eleições de Março, o país possa retomar a trajectória de sucesso.

Em Coimbra estamos a trabalhar afincadamente para empoderar as infra-estruturas públicas e apoiar os empresários nesta fase pré PT2030, onde se espera que os fundos comunitários possam fazer a diferença nas oportunidades de financiamento. Também neste ambiente social e político, queremos muito que, Coimbra seja The Right Place to Invest!

(*) Doutorando e Investigador