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Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Crimes de guerra são crimes de guerra

10 de Novembro 2023

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos, segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos. O problema é que nascem, mas rapidamente os senhores da guerra lhes retiram essa dignidade e direitos, nomeadamente no Médio Oriente, onde se assiste à barbárie e ao genocídio.

A barbárie provocada por uma organização terrorista (o Hamas), apoiada por regimes onde não impera a democracia, mas a sonegação dos direitos humanos, e que matou inocentes, estropiou seres humanos, vandalizou habitáculos de vida humana, invadiu território à lei das armas e da catana.

O genocídio provocado pelos líderes israelitas, acolitados pela extrema-direita que estava à beira da vitória eleitoral, que bombardeia indiscriminadamente civis, mulheres frágeis e crianças, assassina filhos de um deus menor em campos de refugiados, destrói à lei da bomba edifícios e habitações precárias, inviabiliza o acesso à água e aos alimentos, destrói hospitais (como é possível?) e caminhos de acesso para socorro dos feridos.

A atitude esclarecedora e humanista do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que compreende que uma vida é uma vida, e que não há crianças de primeira e de segunda, nem civis como se fossem militares, é atacada por teóricos da guerra, por quem não compreende que a razão, mesmo vencida, não deixa de ser razão.

Ucrânia e Médio Oriente

No caso da guerra contra a Ucrânia, todas as pessoas de boa fé e racionalidade, sendo contra a invasão da Ucrânia pela Rússia, lamentavam (e lamentam) todos os mortos resultantes do conflito armado e da prepotência de uma superpotência, Estranhamente, agora no Médio Oriente, há pessoas que são contra a bestialidade provocada pelo Hamas, mas também são favoráveis à retaliação, promovendo o “Viva la muerte” dos inocentes como apocalipso, com estímulo ao direito de matar e ao ódio entre pessoas que são pessoas, não são animalescos.

Crimes de guerra são crimes de guerra, sejam cometidos em nome da religião e da convicção, da história e da tradição, da política e do radicalismo, da soberba e do arbítrio, ou do domínio e do património.

Nem os reféns dos terroristas em risco de vida, nem os civis palestinianos encurralados num palmo de terra e bombas a cair, são “danos colaterais”. São vítimas de genocidas alucinados e gente sem escrúpulos, que os consideram um objecto sem valor, uma coisa ambulante, uma peça descartável no xadrez político.

É preciso um cessar fogo, o acesso à ajuda humanitária das vítimas da guerra, a diplomacia com e sem punhos de renda, a construção de uma nova ordem política regional, em que os interesses da paz e do desenvolvimento se sobreponham aos interesses geoestratégicos, na dominação do mundo, do petróleo e de outras riquezas que geram ambição, poder e… morte.

Tem de haver solução para um conflito que não passe pelo elogio da morte. A existência de 2 Estados, o Estado de Israel e o Estado da Palestina, com fronteiras definidas por acordos que envolvam a comunidade internacional, centrada nas Nações Unidas, que não são folclore, mas são força motriz do consenso e da paz, é imperiosa, urgente e inadiável (há reconhecimento de 2 Estados pela maioria dos países do mundo, mas não há atitude frontal de aplicação).

Mahatma Gandhi dizia “Não há caminho para a paz. A paz é o caminho”. Não é essa a postura dos senhores da guerra, que se baseiam nos dividendos, no destilar verrinoso, na violência atroz, na inumanidade feroz. É preciso acreditar que há uma solução que passa pela vida.

(*) Médico