Coimbra  2 de Dezembro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Covid-19, esperança não é igual a euforia…

19 de Novembro 2020

Estamos em plena crise pandémica, numa fase em que o número de casos e a mortalidade são as mais altas, desde o início da doença covid-19 e, estranhamente, atravessamos um período de esperança devido à proximidade da existência de vacinação disponível, que se confunde com euforia, fazendo esquecer os riscos que atravessamos na atualidade.

Ora, nada de mais errado do que facilitarmos na contenção da casuística em morbilidade e mortalidade, com a perspecctiva imediatista que a remissão da pandemia “é já ali…”, e libertarmos as endorfinas e os comportamentos de risco, contestando até medidas de política que nos protegem e protegem os outros, que são seres humanos como nós, esburgado o egocentrismo e esgargadas as fundamentações dos decisores.

As decisões políticas têm correspondido às necessidades de minimizar os perigos do que dificilmente é controlável (a transmissão do vírus e a progressão da doença), em tranquilidade, sensatez, pedagogia e acção coerciva (estratificação de níveis de risco, limitação da mobilidade e circulação, apoios sociais embora nunca suficientes), enquanto as decisões técnicas nem por isso, deixando algo a desejar (contradições evidentes, convicções pouco contidas e até histriónicas, hesitação no uso de máscaras, recursos humanos desconsiderados, equipamentos de proteção individual desajustados, subvalorização da assistência à doença não-covid).

Os comportamentos têm primado pelo civismo generalizado e respeito pela cidadania, sem ignorar franjas da população que desleixam a sua vida como de outrem, não cumprindo regras de segurança e, pior ainda, encabeçando movimentos de opinião anti-senso porque sim, desconhecendo a ciência, valorizando o seu ego e protagonismo, escarnecendo de quem cumpre normas sociais, como verdadeiros alcovetos e promotores do devaneio, da estultícia e do capricho.

Vêm aí as vacinas, felizmente, porque a ciência tal como o saber ocupam lugar, porque os médicos e os profissionais da saúde sabem o que outros não sabem e por vezes até têm raiva a quem sabe, porque a investigação é séria e competente e não apenas quando “Ai Jesus…”, porque há quem invista no ser humano e não na circulatura do quadrado.

Não podemos esquecer nem desvalorizar a fase dura da pandemia em que a morte destrói os mais fragilizados, a doença corrói pessoas que não são números com dimensão de sequelas ainda pouco conhecida, as medidas de política são essenciais e permanentemente atuais, as decisões técnicas devem ser ajustadas, os pareceres científicos devem ser paradigmas e não serem considerados como opiniões acessórias e inferiores.

E devemos dar crédito à ciência e ter esperança que a vacinação, envolvendo agora preparação logística, mecanismos de distribuição, seleção de grupos alvo prioritários, recursos humanos disponíveis e motivados e até meios de produção, é a luz ao fundo do túnel para o fim da crise pandémica, e não é, objectivamente, uma panaceia propagandeada pelos incrédulos em tudo o que mexe, pelos perturbados em saúde mental e por aqueles que desejam que tudo corra mal com concupiscência.

Sem euforia, vamos mobilizar-nos pela ciência, separando o estado de graça do caminho da desgraça, mantendo precauções comportamentais, aleixando pessoas e aproximando consciências, combatendo a desigualdade no acesso à saúde e ao bem-estar pelos vários mundos, também com esperança na igualdade de oportunidades e nos direitos humanos para todas e para todos.

(*) Médico e deputado do PS na Assembleia Municipal de Coimbra