Coimbra  4 de Dezembro de 2021 | Director: Lino Vinhal

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João Pinho

Convições e indicações versus medalhas e cicatrizes: Retalhos da vida de candidato

15 de Outubro 2021

Causou alguma surpresa que eu tenha surgido, em março deste ano, como candidato à presidência da junta da União de Freguesias de Souselas e Botão, apoiado pelo Partido Socialista. Talvez porque tenham visto nesse acto, uma contradição aparente com o que foi escrevendo nas páginas deste jornal, insurgindo-me contra a política cultural seguida pela câmara socialista. Puro engano. Na verdade, aquilo que alguns não quiseram ver, pois assim convinha numa certa lógica de poder, é que a razão fundamental que me fez aceitar o único convite que recebi, era poder servir a união de freguesias na qual tenho antiquíssimas raízes, ajudando a criar um movimento renovado de pessoas interessadas num futuro mais próspero, assente num projeto moderno, exequível e transparente de funcionamento autárquico, vertido num programa eleitoral multidisciplinar, feito por pessoas de várias áreas e saberes.

Terei sido, provavelmente, o candidato do Município de Coimbra que mais ataques sofreu nas redes sociais, onde alguém pouco certo das ideias, com grandes responsabilidades políticas e institucionais, mais não fez do que denegrir e misturar a minha vida política, com a pessoal e profissional, demonstrando uma ambição sem limites, uma sede de poder doentia, uma intranquilidade incomum. Colherá o que semeou, pois, largos dias têm cem anos. A dada altura, talvez a meio desta aventura, pensei em desistir, pelas razões bem conhecidas que envolveram um ex-autarca na barra do tribunal. Mas pasme-se: até nesse momento, ou melhor dizendo, ainda mais nesse momento, aquele homem pouco certo das ideias preferiu bater num homem já caído e abatido, aproveitando ao mesmo tempo para me associar politicamente ao partido e às pessoas envolvidas, forma habilidosa de não discutir ideias, projectos ou ações. Ainda aguardo, por exemplo, o convite para um debate, número de ilusionismo que não passou, mais uma vez, de bramido nas redes sociais. Mas tal como em 2017, em que estive ao lado de João Pardal como mandatário da lista candidata pelo PSD à União de Freguesias de Souselas e Botão, segui as minhas convicções e não as indicações. E como me honro disso! Mantive-me e mantenho-me independente, sem filiação partidária, pelo que na ausência de uma solução política no centro-direita que combatesse a demagogia e populismo reinantes desde 2013, aceitei, como disse, um projecto político baseado num modelo construtivo, realista, agregador e de proximidade. Não ganhámos as eleições é certo, mas também não perdemos tudo. Duplicámos a votação, conseguindo renascer e renovar as bases, integrámos muitos jovens, trouxemos vários históricos, fizemos política verde, e criámos um espírito de equipa e até de família numa salutar mescla de militantes e independentes. Gostaria, por fim, de deixar uma mensagem: que todos os nossos políticos passassem por esta fase de amadurecimento político nas suas carreiras.

Dar a cara e a voz junto do povo durante semanas, dar-se a conhecer porta a porta, defender o seu projecto no terreno, olhos nos olhos com as pessoas, sentindo os seus problemas, receios e esperanças. Teríamos, estou certo, melhores gerações de políticos, mais conhecimento, mais verdade, mais razão, menos ambição pelo poder. Em política não pode valer tudo, nem mesmo um autocarro comprado em plena campanha para as coletividades, por um executivo que durante meses gritava, perante a não obra, que estava sem dinheiro para o mínimo dos mínimos: as limpezas. Compreender-se-á aqui o medo, talvez de perder as eleições e, por arrastamento de se realizar uma auditoria? Carregar nos ombros uma responsabilidade desta natureza, não pode ser visto como uma cicatriz, mas sim como uma medalha. Não para mim, que de todo a não mereço, mas para os candidatos que assumiram este desafio pela mesma razão que eu aceitei o convite endereçado pelo partido socialista: servir a população e não se servir da população. Esta é uma diferença que gostaria de deixar bem vincada, e que foi vista por quase 1.000 votantes, expressão eleitoral que nos faz acreditar que a mudança não foi possível agora, é certo, mas sê-lo-á talvez mais brevemente do que alguns imaginam.

Quanto a mim, regresso à minha condição de investigador da nossa história, memória e identidade, cansado de uma luta desigual, mas com a certeza do dever cumprido e enriquecido com a experiência vivida, a qual fica para memória futura.

(*) Historiador e investigador