Coimbra  25 de Abril de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Diniz Freitas

Contracultura

23 de Fevereiro 2024

1.Tive a sorte e o privilégio de ter nascido no berço da civilização ocidental, a mais extraordinária criação da humanidade, nunca suplantada por qualquer outra. Por isso, e em primeiro lugar, cumpre-me agradecer aos antepassados a maravilhosa herança que nos legaram, em todos os domínios da actividade humana, seja na esfera espiritual dos princípios e dos valores, seja no plano tangível do bem material. O fulgor rutilante dos fastos da civilização ocidental é inexprimível. Bondará, no entanto, singularizar alguns dados históricos iniludíveis, para esboçar e prelibar a sublimidade da civilização a que me orgulho de pertencer:

  1. Foi o génio do Ocidente que iluminou o pensamento e o conhecimento, e a ele se deve o fantástico progresso técnico-científico de que toda a humanidade actualmente beneficia;
  2. Foi no Ocidente que se fundaram as mais antigas Universidades do mundo, que iluminaram o pensamento, a palavra escrita, a pesquisa e a invenção. Continuam a ser faróis do espírito e fonte de sabedoria.
  3. c. Foram os povos ocidentais que desenvolveram os meios de comércio mais bem sucedidos no mundo, incluindo o livre fluxo de capitais. Este sistema de capitalismo de mercado tirou mais de mil milhões de pessoas da pobreza extrema só no século XXI, até ao presente.
  4. Foi no Ocidente que floresceu o princípio da representatividade democrática e vicejou a liberdade política, de pensamento, de expressão e de consciência, se edificaram os códigos dos direitos humanos, e se sagrou o primado da dignidade do ser humano, à luz da mensagem cristã.
  5. O Ocidente brindou o mundo com realizações culturais prodigiosas e imorredouras, na literatura, nas artes, com apogeu nas deslumbrantes catedrais, na escultura, na pintura, na música, etc.
  6. Os povos do Ocidente, e aqui cabe glorificar a gesta heróica lusitana, descobriram o mundo, novas paragens, novas gentes, novas culturas, entrelaçando deste modo laços espirituais e materiais entre todos os seres humanos do planeta.
  7. Se dúvidas restassem sobre a grandeza e a riqueza da civilização ocidental, caberia perguntar: para onde se dirigem os crescentes fluxos migratórios que diariamente testemunhamos? Não se dirigem para a China, ou Rússia, ou Ásia, ou África, mas sim, esmagadoramente, para o mundo ocidental, designadamente para a América do Norte, Canadá, Grã-Bretanha, Austrália e União Europeia.
  8. Acontece que esta nossa cultura e civilização ocidental foi invadida, como no passado, pelos bárbaros da modernidade. Assiste-se presentemente a uma guerra cultural entre os que defendem ardorosamente os ideais e os valores do Ocidente, e os que visam uma contracultura de desmoronamento. Por complexo freudiano, por inveja, por ressentimento, por ignorância, por fanatismo ou por imbecilidade, esses bárbaros, nascidos ou recolhidos na civilização ocidental, ruminam e conjuram tendo em mira a demonização do ocidente, a derrocada dos seus alicerces e das suas muralhas, o desmantelo das suas fundações espirituais e culturais. A alternativa que esta gente oferece é a desconstrução e o vazio. A investida chega a atingir paroxismos mórbidos. Falar das épocas de glória do Ocidente, é reaccionário e colonialista; falar dos defeitos de outras culturas, é discurso de ódio.
  9. No nosso país, os grupelhos da esquerda radical, que não se distinguem na sua utópica ideologia, são fervorosos paladinos dessa contracultura. Quando se propalam e incensam mitologias que ferem a razão, a verdade científica e os nobres e seculares valores civilizacionais, como sucede com a corrosiva ideologia de género; e se propugna a sua divulgação a crianças do ensino secundário; e se pretende impor uma nova linguagem neutra; e se convoca à destruição de monumentos históricos, como já se ruminou relativamente ao padrão dos descobrimentos; e se incita à vandalização de pinturas e de obras de arte do passado;e se ultraja a Bandeira Nacional; e se vilipendia a história pátria, tentando denegri-la, subvertê-la, reescrevê-la ou denegar o fulgor e a gesta heróica das descobertas; e se defende a edificação de um memorial sobre a escravatura, mas se recusa a construção do Museu dos Descobrimentos; e se reivindicam reparações despudoradas a favor de descendentes de vítimas de escravatura; e se propõe que se alterem nomes de ruas, pracetas, pontes, edifícios públicos, hospitais, etc, quando essas designações não se compaginam com a doutrina woke; e se defende, entre outros disparates, que em vez de pai e mãe, deve adoptar-se o termo progenitores; e se é contra a NATO e se recusa no parlamento subscrever que o regime de Putin, que acaba de assassinar Alexei Navalny, é terrorista; e se apodem de «fascistas», «fanáticos» ou «radicais» todos os que recusam este catecismo mórbido; e, mais recentemente, se propõe o cancelamento ou revisão de obras literárias que exibam vocábulos ou expressões consideradas impróprias e ofensivas, à luz desta mitologia delirante; quando tudo isto, e muito mais, vem acontecendo no país, caminha-se perigosamente para a fronteira do caos e da idiotia.
  10. Por isso não entendo os que se afirmam defensores dos valores sagrados da civilização ocidental, e no entanto votam em partidos que propugnam o seu desmoronamento. Também repudio os que, por sede de poder, não se incomodam de estabelecer alianças políticas com essa esquerda radical e populista. Repugna o relativismo moral. Haja coerência e probidade. Não atraiçoemos a memória dos que nos legaram esta maravilhosa herança. Sejamos dignos do berço cultural e civilizacional onde nascemos.

(*) Professor Jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra