Coimbra  25 de Maio de 2022 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Congresso da Oposição Democrática também foi Abril

8 de Abril 2022

Em Abril de 1973, então com 19 anos, estudante de Medicina, fui na companhia do Rui Baptista (falecido), único amigo democrata e lutador pela liberdade que então tinha automóvel (um Wolkswagen carocha), do João (falecido) e do Joaquim Pinheiro, participar no Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro.

Tinha ímpeto revolucionário, já adquirido nas fraudulentas eleições de 1969, onde tinha feito propaganda, colado cartazes clandestinamente e divulgado panfletos da Oposição Democrática, em Benavente, onde frequentava o colégio e tinha sido proibido pelo prefeito do internato de colocar os prospectos “pela liberdade e justiça social” na porta do armário da camarata. Optei então por os colocar no interior da porta, deixando-a aberta. Alguns cartazes dei-os ao meu pai, a seu pedido.

Fomos os 4 amigos para Aveiro, na véspera do Congresso, prevendo dificuldades de circulação rodoviária, confirmadas pelo encerramento dos cruzamentos de acesso a Aveiro, pela 17h 30m (exactamente logo após a nossa passagem…), e a perseguição da polícia política (a PIDE) que nos vigiava regularmente no Café Moçambique, em Coimbra.

Por segurança e porque o nosso poder económico era restrito, dormimos no carro, sentados nos respectivos lugares (dormitámos…), mas conscientes da nossa luta e da importância do nosso acto participativo.

E assim, no dia seguinte, lá estávamos no Cine-Teatro Avenida, para ouvir as várias teses políticas, adquirir alguns livros proibidos e contactar com companheiros de luta, alguns dos quais figuras de proa contra o regime da ditadura de Salazar e Caetano, na luta política e nas artes, como antifascistas e democratas. Assim conhecemos o Zeca Afonso e o Zé Jorge Letria, a quem acompanhámos, cantando fervorosamente nas escadarias interiores do Teatro.

Pela tarde, realizou-se uma manifestação na Avenida Lourenço Peixinho, com cerca de 4.000 participantes (congressistas e povo de Aveiro), tendo eu transportado um suporte da faixa “A juventude diz não à guerra colonial”, até à a carga policial que se seguiu sobre os pacíficos protestantes, com o apoio de um veículo que lançava tinta azul, para marcar os manifestantes, agredi-los, prendê-los e torturá-los. Torturá-los sim! Assim aconteceu comigo em outros episódios…

Mas quem me marcou foi a população de Aveiro que, em solidariedade com os manifestantes pela liberdade, colocou as chaves das portas de suas casas, ao longo da ria, do lado de fora da porta, o que permitiu que nos refugiássemos até à retirada das forças opressoras.

Foi em Abril, um ano antes de Abril. O fascismo existiu. Outros episódios da luta antifascista se seguiram, na academia de Coimbra e no Ribatejo não esquecido. Decorridos quase 50 anos sobre o Congresso da Oposição Democrática, quem lutou pela liberdade e pela democracia, não se atemoriza com ameaças, dislates e veneno destilado em redes “sociais” por serventuários do poder, mentecaptos e frustrados. Basta-me que a minha neta tenha dito “O avô lutou!”. E não preciso reconhecimento da História nem da minha história, mas apenas respeito. E mesmo que assim não seja, afinal, Abril continua!

(*) Médico