Coimbra  26 de Novembro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Cândido Ferreira

Como vencer a tempestade?

8 de Maio 2020

Detentor de informação privilegiada, proveniente da China, logo em finais de Janeiro ganhei consciência da ameaça do novo coronavírus. E mais preocupado fiquei por saber que naquele país vigorava um poder totalitário, que entendia enfrentar um problema de saúde pública como se de uma “guerra biológica” se tratasse.

Limitando liberdades, sonegando informações e proibindo a circulação no seu interior, enquanto mantinha as fronteiras externas abertas durante semanas, a China, uma das placas giratórias do mundo, não hesitou em exportar um vírus que se revelava altamente mortífero. E até a OMS desvalorizou essas falhas graves, que também a nossa DGS, controlada pelo MS, ignorou.

Preocupante para mim foi também logo ter ganho a noção de que, naquele país, ainda predominava a chamada medicina tradicional. Com um registo de milhares de vítimas, a China apenas reportaria três autópsias, o que é bem revelador de um enorme défice na investigação médica e de uma baixíssima qualidade nos cuidados clínicos.

Com o mundo da ciência “às aranhas”, e já com a catástrofe instalada à escala global, também muito me abalou perceber que o Ocidente, ao contrário do Oriente, não estava minimamente preparado para enfrentar pandemias. Como escrevi, há muito que se “sabia que o homo sapiens sobrevive numa biosfera adversa e em constante mutação” e “há décadas que se previa uma peste assim”. No entanto, ainda que recusando teorias da conspiração, o caos estava instalado nesta banda do planeta, onde eram os superiores interesses dos poderes político-económicos, e não a ciência e a técnica, quem ditava as regras.

Alarmado com os horrores a que assistia, e também reagindo ao eclipse da medicina dita científica, durante Março escrevi dezenas de textos em que defendi a urgente formação sanitária da nossa população e protecção civil, o confinamento físico e o uso obrigatório de máscaras, sob uma linha de comando orientada de forma precisa e eficaz. Só assim, entendia, poderíamos travar o pico que se adivinhava. No entanto, sempre optimista, e adiantando previsões bem mais corretas que as oficiais, também sempre fiz fé no nosso SNS que, se equipado a tempo, estaria preparado para enfrentar a “batalha mais heróica da sua vida”.

Vendo as barbas dos vizinhos a arder, os portugueses aprenderam depressa e o MS acabaria por tomar medidas tardias e sem nexo, mas que ainda conseguiram travar muitas das cadeias de transmissão. E é assim que hoje, com a pandemia quase controlada, Portugal procura entrar numa nova fase, ultrapassando um confinamento que se tornou económica e socialmente insustentável.

Tenho agora ainda mais esperança em que tudo corra bem, uma vez que até o Presidente, a AR e o Governo já cumprem as regras sanitárias mínimas, exigíveis à população em geral. No entanto, as variáveis que temos pela frente são imensas e muito há ainda que fazer pela saúde dos portugueses. Mas, se fizermos depressa e bem, talvez ainda possamos sonhar com uma época balnear e com a retoma de Portugal enquanto destino turístico.

Teria sido uma óptima promoção do nosso país a reabertura do futebol profissional, obviamente à porta fechada e com a máxima segurança, tal como já fez a Coreia do Sul. Com a economia em sérias dificuldades, há mesmo que animar a malta, que bem precisada anda dessa “energia” extra. Sobretudo quando não existe grande margem para crer nas prometidas ajudas financeiras, uma “cascata” por demais seca:

– há dezenas de milhares de pequenos e médios agricultores e empresários a quem são devidos fundos do Programa 20/20, desviados para outros fins;

– contam-se também por muitos milhares os lesados da banca, por ressarcir;

– enquanto muita empresa atravessa dificuldades, porque os poderes não pagam;

– e ainda há milhões de salários e pensões, por actualizar;

– a que se somam imensos prejuízos dos incêndios, por indemnizar;

– e mais os estragos do Leslie, por reparar…

Perante uma calamidade sem precedentes, os portugueses vão mesmo ser obrigados a repensar com urgência o seu futuro, e alterar muitas regras e comportamentos, sob pena de poderem vir a sofrer graves convulsões e até de um retrocesso civilizacional.

Temos, pois, pela frente a “mãe de todas as batalhas”, que nos lança um desafio tão sério como apaixonante:

Será Portugal capaz de retirar as lições de um passado recente, recheado de erros, ganhar novo fôlego e vencer a “tempestade perfeita” que sobre nós se abateu?

Ex-médico e escritor