Coimbra  18 de Julho de 2019 | Director: Lino Vinhal

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João Pinho

Coimbra, o Mondego e a pesca: Do Caneiro real ao Caneiro municipal

22 de Março 2018
O caneiro real

Imagem da ponte de Coimbra, pouco depois do ‘terminus’ da actividade nos caneiros, 1836 (DR)

 

Durante séculos conservou-se junto da ponte de Coimbra um espaço, reservado e demarcado com estacas, apelidado de caneiro real: uma estacada/caniçada no rio, formando uma espécie de corredor, por onde o peixe entrava, facilitando a sua pesca.

As pescarias lançadas naquele caneiro eram consideradas um direito real, mas susceptível de ser arrendado ou aforado pelos representantes do rei – forma, aliás, muito praticada ao longo dos séculos para o rentabilizar.

Vários documentos existentes no Arquivo Municipal e na Torre do Tombo aludem a este caneiro, que a 04.01.1431 foi dado de aforamento pelo duque de Coimbra e que depois da transmissão do senhorio da cidade ao mestre D. Jorge, só regressou à posse da coroa com a extinção da Casa de Aveiro, em 1759. O próprio foral manuelino da cidade consagrou-lhe uma rubrica especial.

O corregedor da Comarca da Estremadura, por sentença de 15.03.1522, regulamentou a pesca no Mondego, de forma que ninguém pudesse pescar ou lançar redes «des de a figueira [de Lorvão] até a ffoz do momdego», enquanto durasse a «çafra do matar dos saues» bem como nos domingos e dias santos «pera que lyuremente ho peyxe posa emtrar pola ffoz e sobyr polo rio acima pera proveyto de todos».

Outra sentença de 1561 revela semelhantes intuitos de protecção do bem público proibindo o lançamento de rede «temtes e bugigangas». Como se vê, eram muito apreciados os sáveis (tal como as lampreias) do caneiro real, cujo rendimento se cifrava em 40 000 reis anuais.

Em 1824 o emprazamento do caneiro havia sido feito a 10 pescadores pelo foro anual de 210 000 reis, além da pensão. Em 1832, com a extinção dos direitos reais, findou, oficialmente, a actividade económica em torno do caneiro real.

Além do caneiro real, chegou a existir o caneiro da cidade (municipal), instituído depois de 1516 e confirmado a Coimbra pela provisão régia de 22.02.1608: tratava-se de um pequeno caneiro, acima do caneiro real, estando interdito em seu redor não só o lançamento de redes mas também a construção de outros similares.

A vereação revelaria, ao longo dos anos, especiais cuidados com a manutenção de uma frágil estrutura assente em estacas, por motivações de índole económica: das noites de pescarias a que os pescadores estavam obrigados a fazer, revertiam relevantes emolumentos para a vereação, não sendo por isso de estranhar que, a partir do despacho de 1753, a actividade piscatória no caneiro se passasse a fazer ainda com maior regularidade.

Existem pelo país vários topónimos e microtopónimos «Caneiro» que atestam a sua relevância económica e social. Mas nem todos se referem a uma realidade semelhante à descrita neste artigo: por caneiro também se compreende um canal pequeno, mais ou menos estreito, por onde corre água; a parte mais funda e navegável de um rio; um pequeno braço de mar entre rochedos; ou, numa acepção mais militar, uma passagem estreita e coberta entre trincheiras e fossos nas fortificações.

A designação «Caneiro» enraizou-se entre a população, passando para a antroponímia na forma de apelido, dando nome a restaurantes, cafés e alojamentos, a casa de mobiliários e a urbanizações, entre outros.

(*) Historiador e investigador

 

 

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